“Para o substituir (de outro modo) há Moniz Barreto, implacavelmente psicólogo, e tão terrivelmente homem-de-livro, que quando a gente diz ‘está calor,’ ele acode logo – ‘já leu sobre isso tal e tal? leia sobre isso tal e tal!’ É pavoroso!” – Carta de Eça de Queiroz à esposa, 24 de Julho de 1893.

18 de março de 2018

João Palma-Ferreira


O primeiro diário de João Palma-Ferreira começa num cemitério e se calhar nunca sai dele:

   Lisboa, 2 de Janeiro de 1962.
   Hoje fui ao cemitério cumprir um deve cívico. Mas ainda não foi desta que pude levar a boa-nova aos ossos de meu pai.

Dois dias antes, na véspera de Ano Novo, uma revolta militar no quartel de Beja tentara sem êxito derrubar a ditadura. Nestas páginas as boas-novas são raras, como prémios de raspadinhas; Palma-Ferreira terá de esperar mais outra década pelo anúncio da liberdade por que anseia e que ainda não conheceu em vida. Duas semanas antes, a Índia invadira Goa pondo fim a quatro séculos de colonialismo português no subcontinente indiano; mas embora a Guerra Colonial delapidasse o resto do Império, passariam muitos anos antes de chegar àquele nível de ruinaria útil apenas como matéria-prima para erguer muretes e currais. O regime vai desmoronando, mas os indícios desse desmoronamento são irregulares e merecedores de poucas palavras, como se o autor não se fiasse neles. Em 1970, ao ouvir na rádio a notícia de uma morte desejada, escreve apenas, “Nasci na era de Salazar. Só o vi em efígie.” Faltava-lhe ingenuidade para imaginar essa era terminada enfim: uma morte não daria a este país limícola um mapa para fora do caminho de múmias, desmandos, esmolas, remelas e rumores através do qual marchava em marcha feliz; no entender de Palma-Ferreira, urgia antes de mais uma mudança mental. Se ao longo das mais de 300 páginas deste diário englobando a década de 1962 a 1972, ele não sugere soluções, pelo menos esboça a deriva com nitidez.

Embora o diário navegue pelas marés de uma nacional melancolia queixosa e de um quieto desespero resignado habituais no diarismo português, Palma-Ferreira imprime à viagem o seu carácter único de crítico às avessas com a crítica, de incipiente escritor inseguro, e de exímio cronista cuja impaciência com a natureza humana rebenta aqui e ali. Numa entrada escrita a 21 de Maio de 1969:

Faz-se um diário para que não nos sintamos sós. Mas os diários resultam muito pouco. É que não são documentos de felicidade. Ou são sombrios, como os papéis íntimos de Roger Vaillant ou simplesmente acabrunhados como o diário de Manuel Laranjeira. É raro encontrar-se um diário feliz. Só Katherine Mansfield conseguiu escrever algumas páginas de alegria. Mas nesses momentos já estava a pensar no público.

Ninguém pode saber em que pensa o autor no momento em que escreve, nem aceitar as suas palavras ingenuamente; tenho dúvidas sobre essa honestidade: semeia demasiadas frases demasiado literárias, demasiado aprumadas, para não fazerem pontaria ao efeito. A mente de Palma-Ferreira pensava de forma estética, de costas voltadas para a teoria, tão popular actualmente, abrindo a porta ao desleixo, que forjou um laço sagrado entre qualidade e autenticidade. Todavia, se a honestidade de um diário se mede pela sua infelicidade, não há neste uma frase desonesta. “O primeiro dever de um homem é fugir da desgraça,” mas não segue o próprio conselho; em disso vive no centro dela, analisa-a, comenta-a, transforma-a em literatura. A primeira entrada introduz os temas, os motivos, a mundividência e o estilo:

   Lisboa, 1 de Janeiro de 1962.
   O céu abriu-se num caudal de chuva. Toda a noite rugiu a tempestade estalada. De manhã, lívidas as frontarias, as ruas e as raríssimas pessoas. Um frémito de frio ao abrir o jornal. Um frémito maior depois de o ter lido. Novamente o colapso gélido onde sempre vivi.

Este país chuvoso e desértico não mudará muito; o vocabulário, um pouco; mais tarde aparecerá a teia de palavras predilectas em que prende o cotão do quotidiano: velho, noite, fadiga, lixo, silêncio. Nas “ruas mortas” de Oeiras repara como os “velhos vêm apanhar sol para os bancos do parque. Alguns lêem. Outros dormitam. São mais raros os que conversam. Mais raros ainda os que discutem. Parecem estar de acordo com a velhice, com o jornal e com o sol.” Há “pouca vivacidade nos seus hábitos,” como não encontrará em lado nenhum “neste beco sem saída que, por muitos anos, andámos a converter num jardim das mil e uma noites.” Velhos em todo o lado, como a “velha que protege gatos” na rua dele. A caminhar pela Rua Pascoal de Melo, “uma velha soluça misérias.” No regresso de uma viagem a Espanha: “Iria jurar que o velho alentejano que encontrei sentado à porta do Júlio da Rocha é o mesmo que ali estava quando, há dez dias, passei por Beja a caminho da fronteira.” Das calçadas ao cimo dos prédios, pressente-se só bocejos e cansaço, gotejando até do passado para as pessoas. Ao pensar no liceu onde estudou, a memória foca-se nas “inscrições fúnebres” nas paredes e nos professores, “cicerones das exéquias do ensino;” ao recordar-se doutra escola, uma das impressões mais fortes é de que as “salas cheiravam a bafio e a cebola.” Numa ida ao Mercado da Ribeira, só regista as “crianças sujas,” os “papéis sebentos,” a “indiferenças do fiscal.” Este definhamento não amaina nem na vida privada. “Em casa, tudo envelhece. Os jantares são mais silenciosos. Cinco pessoas tombadas sobre os pratos, a mastigar. O tinir dos copos. O rape-rape das colheres.” Já sabemos desde Protágoras que o mundo são os nossos sentidos que o constroem; o mundo de Palma-Ferreira estala de mal-estar a cada momento; a percepção parece sintonizada quase exclusivamente na anedonia. “Pela noite, o arfar do levante,” escreve como se o próprio mundo não conseguisse respirar, “que me deixa alagado de suor.” Em Fevereiro encontra “vestígios dolorosos da Primavera;” cá fala de “escuridão granítica;” acolá apercebe-se da “sordidez de uma rua” lisboeta. A paisagem urbana é um inferno disfémico. “A cobra parda e suja dos veículos e o ritmo monótono das pessoas. Um quase hálito de conformação dirigido pelos gestos lentos de um polícia sinaleiro.” Sobressai numa ou noutra passagem sobre a infância uma ténue felicidade antiga, irrecuperável, mas no presente nem alegria nem beleza: os empregos causam-lhe tédio e roubam-lhe tempo para escrever; os nascimentos dos filhos duplicam-lhe as responsabilidades e deixam-lhe claro que o ponteiro do relógio só tem um sentido.

Um dos principais mal-estares que identifica é o silêncio. Em Janeiro de 1962, toda a cidade burburinha sobre o golpe de estado falhado:

No Rossio, nos Restauradores, nas esquinas da Avenida, procuram-se respostas. Mas ninguém fala. Olhos de riso, com uma certa alegria, cumprimentam-se clandestinamente. O meu próprio gesto de comprar o jornal é clandestino. Já foi clandestino ontem, e antes de ontem, e dias seguidos, ao ligar o rádio, ao perfurar o negrume dos silêncios. Mas, lentamente, os hábitos reasseguram-se da monotonia que a esperança ou o sobressalto só vagamente desorientaram.

Todavia, como falar? O país está morto, não é de bom tom levantar-se a voz em velórios. (Sonolência é outra palavra repetida.) “Chovem boatos. Na protecção das paredes grossas proferem-se frases atléticas. Mas ninguém ousa abrir a janela e contar à noite a amargura de tantas verdades recalcadas.” O medo pôs a língua numa prateleira alta como se fosse uma porcelana cara que deve ser mantida longe das mãos de crianças. À volta, subsiste-se colaborando na mentira, buscando redenção como se pode. A velha dos gatos, depois de alimentar os bichanos, “afasta-se, mais lenta no regresso, com a paz dominical de quem foi à confissão e se salvou da catástrofe.” Os que pensam do cerne de uma ditadura, ou condenam toda a sociedade, por se sujeitar, ou procuram atenuantes, para a perdoar. Palma-Ferreira inclinava-se mais para a condenação. Não vê nenhuma salvação aquém da catástrofe, não se fia em nenhuma redenção que não mine o problema pela base. Contudo, a raiva é moderada; ele sabia que julgar os outros é fácil demais, especialmente se julga homens e mulheres comuns por temerem um regime violento, e ele enquanto juiz não faz nada mais perigoso do que escrever um diário. Até ele caminhava aos apalpos por uma solução, clamando por uma reforma de mentalidades. “De que mais necessitam os portugueses? De uma revolução sistemática do conceito de responsabilidade. De uma modificação das pessoas. De um aperfeiçoamento da conduta humana. A alteração dos sistemas será, depois, inevitável.” Do outro lado do Atlântico, pela mesma altura, escrevendo os textos que um dia formariam O País do Absurdo, o exilado Adolfo Casais Monteiro, republicano, reconhecia a ingenuidade da República por ter presumido que, mudando as instituições, mudaria magicamente o modo como os cidadãos pensavam e agiam.

Palma-Ferreira, ao destacar a importância da responsabilidade, lembra-me da panaceia queiroziana para os males nacionais: o trabalho, não o trabalho precário explorador que é tão velho como o país, mas o esforço para realizarmos algo nosso, o acarinharmos algo nosso, o pormos todo o nosso empenho numa tarefa e obtermos gozo por a concretizar. Palma-Ferreira, afinal, procurava um remédio para maleitas antigas, as mais difíceis de curar porque tão comuns que a dor já parece uma condição natural. Como explicar a pessoas que se julgam saudáveis que estão doentes?

Todas as generalizações encalham. Palma-Ferreira não pode fomentar estas grandes reformas urgentes; só pode ser responsável por si mesmo e caminhar pelo mundo tentando manter-se ético num mundo onde reina a panelinha, solitário porque a intimidade gera complacência e favores. Ganhou esta experiência ao escrever crítica literária para jornais, sacrificando o escritor com a estabilidade de um emprego. “E aqui estou, regressado ao trabalho. Esmagado de deveres, vigiado, classificado, esbaforido, preocupado, comprimido pelo horário. Aqui estou a vender minutos da minha alma, a pedinchar uma pausa de meia hora. Daqui vou para o inferno. E o inferno é isto. A fadiga da quase ubiquidade vigilante que viver assim pede a quem não tem forças para ganhar, na praça pública, a redenção de bater com a cabeça numa esquina.” Passivo, mas não alienado, observa e aponta do banco dos réus onde se incluiu com os outros. “O que mais me horroriza é a asfixia lenta da lama que hora a hora nos vai cobrindo.” O fracasso do golpe militar, suscitando apenas um remoalho de boatos, acentua-lhe a própria debilidade; ainda que não boate como os outros, escreve para o diário, calando-se também. “E que fizemos nós, os de trinta anos? E que civismo é este, o de vivermos como lapas a mendigar o pão da miséria que ocultamos?”

Ao princípio, Palma-Ferreira ilude-se com uma felicidade que encontra no estrangeiro. Em Biarritz, a 26 de Março de 1963, eufórico: “Somos os únicos hóspedes do Beaulieu e dormimos aqui como, há meses, não dormíamos: um berço de tranquilidade embalado na borrasca que toda a noite desabou sobre a costa.” No dia seguinte acrescenta a esta alegria: “Não há nada melhor do que um fogo de lareira para nos transmitir toda a segurança que as estradas cobertas de neve, e noite e a neblina nos vão exigir.” Mas só dois anos depois o miasma de Portugal o ensombra e o segue aonde quer que vá. Em Gibraltar, a 13 de Agosto de 1965, evoca o mar com nostalgia cadaverosa, “o meu mar-berço, portão de histórias, de decadências e de esplendores, esmagado pela África velha e pela Europa envelhecida.” Em Cáceres, a 13 de Abril de 1966, anota que “saio sempre de Espanha como se abandonasse um imenso túmulo,” como se os dois países peninsulares se fundissem, indistinguíveis, num mesmo ossário. Pela Península e arredores vai coleccionando as mesmas queixas sobre ruínas, sonolência e silêncio que Portugal já lhe provocou. E chega de Salamanca este aforisma: “A melhor forma de viver: hibernando.” Palma-Ferreira lembra-me Eça, que tanto fulminava o país quanto idolatrava o estrangeiro. É claro que Eça só precisou de sair daqui para descobrir que a Inglaterra, a Alemanha e a França, as pedras-de-toque da civilização, lhe eram países igualmente abjectos, como deixou claro na saraivada de crónicas que disparou contra a crueldade, o imperialismo, a megalomania, a cupidez, a boçalidade, a xenofobia destes poderosos impérios. Imagino ambos a pertencer àquela estirpe de homens que jamais poderiam ter sido felizes onde quer que houvesse pessoas, porque intimamente sabiam que são as pessoas que arruínam sempre as esperanças que constroem para o mundo. Daí o grito de desespero quando anota a 31 de Maio de 1969, “Queria tanto não voltar a conhecer pessoas, pessoas, pessoas, mundo povoado de cáustico.” Foi um misantropo, talvez, mas não um que odiasse a humanidade; pelo contrário, o seu desejo por um mundo mais justo e mais humano, esbarrando contra a indiferença, subsistência e inércia da espécie, levou-o a procurar a reclusão. Daí que a solidão, escrita e salvação se fundam:

Passei a vida a antecipar o dia em que encontrasse essa coisa fácil que é alguém que me compreendesse. E que me aceitasse, não como sou, mas como eu gostaria de ter sido. Esta busca é uma espécie de jogo entre a vida e a invenção, já que diariamente invento um mundo íntimo para poder sobreviver à vida que me cerca. Gostaria de possuir apaixonadamente muitas ideias seguras e claras, mas afinal só vou coleccionando erros.

O mundo não segue os nossos caprichos, nem a condição humana conhece muitas variações. As ideias só funcionam na palavra escrita, controlada pelo escritor. Os erros da vida não entram na arte, regida por regras estéticas. A arte almeja a perfeição e a ordem, combate o caos, quando muito subordina o caos à beleza. Se ele não tinha controlo sobre o mundo físico, podia criar um lugar da literatura.

Há diferenças bem vincadas entre o que escreve sobre si mesmo e Portugal, e o que escreve sobre literatura; ele e Portugal só merecem textos curtos, transmitindo uma sensação asfixiante de letargia e monotonia: o presente é um estado de alma estático, repetitivo. É ao escrever dos livros e dos autores que o diário revela variedade, bulício e vestígios de alegria. Separados como o sol e a lua, salvo o raro eclipse que ofusca tudo. “De manhã reli a Ode Marítima. Falei, no emprego, sobre a Ode Marítima. Sou tão simplório que acreditava que todo o mundo conhecesse a Ode Marítima,” escreve. “Mas os portugueses apenas são pessoas que andam por Portugal. São pessoas manipuladamente diárias. Detesto estes comparsas das vitórias fáceis.” Eu compenetro-me dele, eu que no passado quando trabalhava num call-center reincidia no erro de levar comigo livros obscuros, outros livros que não nos tops de vendas.

A década enfiada neste diário testemunha o desabrochar de Palma-Ferreira como escritor. Quando começa a escrevê-lo ainda não tinha nenhum livro publicado. A 10 de Maio de 1963, pondera interromper a crítica no Diário Popular porque está “farto de prestar aos devaneios líricos uma atenção que me deixa os nervos em franja” e para poder iniciar a obra literária. “Mas falta-me a vontade para começar a escrever o que vou anotando, informidade de livros que nunca cheguem à luz do dia.” Discute muito pouco a produção literária que por estes anos começa a acelerar; quando o faz é para barafustar sobre obstáculos intemporais: a falta de tempo, a falta de dinheiro. “Quando trabalhadores não têm onde empregar a sua actividade, a Nação preocupa-se: o sistema de flutuação de mercado poderá ser um índice grave na análise social,” escreve. “Mas quando o escritor morre só porque não tem onde ganhar dinheiro para sobreviver, então morreu o poeta e a sabedoria das Nações far-lhe-á o enterro.” O diário transmite a impressão errónea de que não produziu nada; na verdade publicou neste período três novelas, um primeiro estudo crítico, sobre Valéry Larbaud, e o romance A Viagem, aclamado. Só este romance lhe merece uma nota mais extensa: “Põe-se o problema da compreensão. Alguns leitores espanhóis de A Viagem acusam. Falta de clareza. Muito bem. A Literatura já não significa entretenimento.” Não se mostra muito preocupado. “O escritor não pode fazer descer o texto ao nível do padrão ambíguo da compreensão comum. Será que o matemático pode oferecer o cálculo infinitesimal à compreensão comum?” pergunta ele. “O físico que escreve Física para o leitor vulgar não faz física. (…) Literatura é um domínio tão especializado como outro qualquer. O escritor não pode escrever a história que o leitor já traz engatilhada (O’Neill.).” Embora esta intransigência fosse de encontro à estética vigente do Neo-realismo, estava em sintonia com as literaturas estrangeiras que ele não cessava de promover. Nem foi, aliás, uma voz berrando no deserto: atrás de A Viagem, saído em 1970, estavam outros inimigos do padrão ambíguo da compreensão comum como Maria Velho da Costa, Almeida Faria, Alfredo Margarido, Tomaz de Figueiredo, Jorge de Sena, M. S. Lourenço.

Revela-se um leitor de literatura mundial e moderna tanto atento quanto arguto, sempre procurando novidades e a par dos nomes novos, ignorando o gosto francês que ia ditando as modas em Portugal. Lido em espanhol e inglês, estendia as suas predilecções aos EUA e à América Latina, centros literários ingratos aos, ou mal compreendidos pelos, pares portugueses. Pelas páginas dele passam os repudiados pelos engajados: louva a lenteza monástica de James Joyce, seu ídolo e por ele traduzido, louva as revoluções dos Beats americanos, com especial ênfase para William Burroughs. Da Europa há Kafka, Camus, Soljenítsin e Samuel Beckett para admirar. D.H. Lawrence causa-lhe ansiedade como crítico: “Que poderei pensar que já não tenha sido retorcido, destroçado, esmagado por idiotizadas instituições académicas e universitárias, as que há quarenta anos consideravam Lawrence como o Satanás?” Pergunto-me se não foi esta necessidade de não repisar o já pisado que levou Palma-Ferreira a especializar-se nos ignorados clássicos da Literatura Portuguesa – O Piolho Viajante, O Almocreve das Petas, Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, Cronica do Imperador Maximiliano – que tiveram nele um dedicado, incansável, erudito curador cheio de fé nos “obscuros e marginados” como lhes chamava? Os que estavam a salvo das garras da academia e portanto disponíveis para albergar no frágil reino que estava a construir para si mesmo?

Mas por agora é sobretudo da literatura latino-americana que se ocupa: Ernesto Sábato (“Sobre Heróes y Tumbas é uma das mais dignas e frenéticas obras de literatura contemporânea”), Julio Cortázar, Pablo Neruda (ridicularizado por andar a pedinchar o Nobel há anos), Augusto Roa Bastos, Jorge Luis Borges, que também traduziria, Guillermo Cabrera Infante, cujo Três Tristes Tigres recebe altos encómios. E apesar da distância do centro, e de estar a lidar com um grupo de escritores relativamente recentes, conseguiu sintetizar em poucas linhas a renovação que se estava a produzir a partir das letras sul-americana e que hoje damos por garantida:

Nenhum dos grandes escritores latino-americanos modernos destrói cegamente os vínculos do tempo na estrutura dos seus romances e contos; nenhum repudia o anedótico (recordamos García Márquez, Sábato, V. Llosa), matéria básica do tradicionalismo narrativo; nenhum deles renega a imersão na linguagem, único meio de captação do quotidiano; nenhum deles despreza a intriga, mas também nenhum deles se deixa escravizar pela necessidade de submissão à verosimilhança. Em tão poucos escritores europeus encontraremos um tão perfeito equilíbrio entre o que, na nova ficção, é expressão violenta da necessidade de ruptura e o que, na técnica narrativa, é fundamentalmente imutável.

Várias vezes deixa bem clara uma visão de uma literatura que tivesse tanto de estro como de ética, simultaneamente um abalo verbal e um urro sobre o mundo. Ao elogiar País Portátil, do venezuelano Adriano González León, frisa que este “não abdica das responsabilidades da literatura mas não se abandona, por isso, à facilidade da ‘prosa lisa’ ou ao malabarismo grosseiro que tenta adaptar as técnicas novas ao impasse de metodismos oficinais ultrapassados.” Noutra parte afirma que “nunca compreendi outra Revolução que não fosse a necessária para transformar em seres humanos os desgraçados que todas as sociedades desprezaram.” De forma oblíqua diz o mesmo quando elogia o clássico de antropologia de Oscar Lewis, Os Filhos de Sánchez, um estudo pioneiro sobre pobreza. Para ele, um escritor, ainda que pudesse transfigurar o mundo pelo fantástico, não podia deixá-lo de fora da literatura. Por isso o seu grande herói acaba por ser Aleksandr Soljenítsin, por ter revelado o sistema repressivo estalinista.

Ser-se bom crítico não significa apenas estar-se atento ao mercado. ‘Estar-se atento’ ao mercado implica saber-se esgravatar através dos monturos das novidades para chegar às jóias escondidas. A intuição para se encontrar o melhor é certamente essencial num crítico, mas também pressupõe que o mercado publique bons livros; porém se o mercado em 1000 livros publicar 1000 bodegas, todo o esgravatar não servirá para nada senão deixar as unhas sujas como as de uma ratazana. Certa vez, a propósito de Dino Buzzati, Jorge Luis Borges disse que era muito fácil conhecer-se os grandes clássicos, mas mais difícil era conhecer-se os grandes contemporâneos. Palma-Ferreira, para conhecer esses grandes contemporâneos, não teve de estar ‘atento ao mercado’, teve de negá-lo e desbravar sozinho; só assim pôde chegar a tantos óptimos escritores ignorados em Portugal, alguns que até aos dias de hoje ainda nem foram devidamente digeridos entre nós. Embora tenha lido Palma-Ferreira demasiado tarde para que me pudesse moldar a concepção de crítica literária, tenho-lhe afinidade pois hoje em dia observo como o nosso meio editorial passou de imitador dos gostos de Paris a imitador dos gostos de Nova Iorque, a serva dos recipientes de prémios internacionais, sem vontade de procurar o invulgar, o desconhecido, o desafiante.

O tom passa de festivo a agressivo quando vira a atenção para Portugal. São poucos os patrícios que menciona com admiração: Raul Brandão, as crónicas de José Saramago, José Cardoso Pires, Vitorino Nemésio, Vergílio Ferreira, com quem se corresponde e sobre quem fez um estudo. Amigos, são talvez menos. Uma carta de Jorge de Sena leva-o à pergunta: “Este homem deixa-me perplexo. Como se pode ser tão agredido pelo país e continuar a amá-lo tão entranhadamente?” Os neo-realistas são um regular bête-noire. “Realistas, realistas, que eu conheça, em Portugal, só os banqueiros e os agentes da imobiliária.” Em 1971, a dar aulas em Salamanca, a curiosidade de um aluno sobre Alves Redol provoca este desabafo: “Mas eu nunca apreciei os romances do Redol. Fatiguei-me a insistir em lê-los, para apenas atingir o termo dos capítulos. A prosa sorna e a cor local acabavam por me dar cabo dos nervos. O Redol cansava-me.” E aos neo-realistas em geral lança a acusação: “O neo-realismo lisboeta e coimbrão foi pai do mundo. E pau para toda a obra. Distribuiu cacetada a eito. Levou o Pessoa, levou a presença, levaram o Kafka e o Freud, não escapou o Beckett nem o Joyce, levaram o Zola, o Eça e o Miller; foi um dar sem dó nem piedade de que hoje alguns encabulados refractários se envergonham.” O conflito com o neo-realismo foi um rito de passagem dos jovens vanguardistas dos anos 60. “O destino do escritor português é o neo-realismo ou o anonimato,” dissera em 1962 Artur Portela Filho, escolhendo o nouveau roman como libertação. Cada um, à sua maneira, teve de preparar a sua fuga. Os excessos eram inevitáveis. Ao suposto provincialismo dos neo-realistas contrapôs-se um cosmopolitismo fundamentalista levado ao ridículo. Palma-Ferreira chegou a dizer numa entrevista, “Nada devo aos escritores portugueses.” José Gomes Ferreira registou em Dias Comuns o embaraço pelo amigo; Luiz Pacheco gozou-o à força toda.

O principal alvo, porém, é a crítica literária, tanto a académica como a jornalística. “Isto da filarmónica crítica, da divina lisboeta é: se não és a meu favor, és contra mim.” Grazinando sempre por alto, Palma-Ferreira foi um praticante do queixume-por-entrelinhas que faz de tanta escrita autobiográfica portuguesa um exercício de descodificação misterioso. Nas poucas ocasiões em que usa nomes – Nelson de Matos, Manuel Poppe, Vítor Silva Tavares – as achegas são rápidas; faltou-lhe, creio, a fúria de Luiz Pacheco para sustentar a catilinária por várias páginas. Há um retrato grotesco, impiedoso do decano da crítica de jornal, João Gaspar Simões. Os presencistas, tal como os neo-realistas, eram outra prova de fogo para os novos escritores, que os viam como doutrinários e antiquados. Hoje estão esquecidas as rixas entre Arnaldo Saraiva e José Régio e entre E M. de Melo e Castro e Gaspar Simões, que foram apenas episódios na eterna querela dos velhos e novos. Palma-Ferreira não rejeitou o dever se bater pelo novos.

A defesa de Palma-Ferreira de americanos não abrangidos pelos beneplácitos dos pontífices que moldavam a opinião e o gosto em Portugal, levou-o a dar uma pavana aos críticos por viverem desfasados da melhor produção literária do seu tempo: “Quem, em Portugal, se interessa pelas coisas literárias foi levado a circunscrever a literatura norte-americana à obra de cinco ou seis escritores quase sempre tardiamente revelados e traduzidos.” Em 1965 não pouparia epítetos aos colegas:

Em Portugal vai ser (já é) falaciosa, demagógica, friamente inútil, assepticamente universitária, sovaqueira, ambiciosa, auto-comandada, pusilanimemente imbecil, louvaminheira, demolidora, patrocinada, protegida, extravagante parlapatona, apressada, grosseira, ingénua, reivindicativa, contestadora, servil, popularenga, masturbadora, oficiosa, instrumental, chocarreira, bibliografista, parisiense, conservadora, consagradora, linguística, linguareira, semanticista, matemática, um bico-de-obra.

Palavras duras, mas nada de novo. Descrever o meio da crítica lisboeta como um cobril não é de uma originalidade gritante. Estas diatribes são tão regulares como pregos dos lados de um armário, sustentando uma longa tradição que recua, pelo menos, até Silva Pinto, ou Mariano Pina, que acusou a Academia de intrigar para negar um prémio a Eça, ou até às próprias Farpas. Encontramos em cada época o crítico solitário, preterido em prol de colegas inferiores, testemunhando de testa franzida a impunidade dos arranjinhos, atolado em mediocridade, remando contra vagas lamacentas de favores, mantendo-se firme no meio do enxurro de prostituições. Em períodos diferentes, com variações, este crítico solitário chamou-se Fialho de Almeida, João Gaspar Simões, Jorge de Sena, Tomaz de Figueiredo, Luiz Pacheco, Adolfo Casais Monteiro, António Guerreiro, João Pedro George, e actualmente Diogo Vaz Pinto e Joana Emídio Marques. É um topos da nossa mentalidade, porque não pára de ser actual. Não tinha Palma-Ferreira ganho nenhum em quebrar tão ínclita tradição, nem a devemos rejeitar, pois além de útil tem oferecido ao meio literário algumas das suas mais excitantes ocasiões.

Palma-Ferreira, contudo, nuca se deu bem neste papel; falta-lhe a gosto pela polémica prolongada, o gosto pela exposição aos perigos. Além disso, o crítico solitário guarda todas as energias para proteger o contemporâneo, e este diário é também uma crónica de que como Palma-Ferreira se foi ouriçando do presente.

Talvez a mais clara metamorfose registada nestas páginas é o lento renascimento dele como historiador dos recantos e escaninhos da nossa literatura. Se o passado o foi recrutando, não quero insinuar que o visse como refúgio, porque nunca renegou um certo papel de intelectual público, como se vê em Textos e Ensaios onde abordou a questão de um canal de TV nacional e o lugar da arte e da cultura nele. Não há uma data exacta, apenas indícios: uma longa entrada sobre a história da censura; uma entrada, quase um catálogo rabelaisiano, de livros proibidos pelo Inquisidor-Geral Infante D. Henrique a 4 de Julho de 1511; um lamento de raspão pela venda da casa de Camilo Castelo Branco; espanto por o Estado não querer comprar a privados obras raras da nossa literatura. Tomou forma nele o pensamento de que era necessário preservar o passado; se o presente era difícil de controlar, se estava sujeito a ditadores e mercados e elogiastas mútuos, pelo menos podia desempoeirar, indexar, arrumar, fixar, comemorar o passado, devolvê-lo a nós com dignidade. Em Salamanca, visita a Capela de Santa Bárbara, em peregrinação por onde já passaram outros escritores clássicos: “e eu honro-lhes a memória,” justifica-se. Docente da universidade nesta cidade, põe em ordem um sótão cheio de “velharias e relíquias portuguesas.” Anos mais tarde, Salamanca teria um papel proeminente no seu romance, Vida e Obra de Dom Gibão, uma homenagem ao pícaro, género estudado por ele à exaustão. “A última etapa,” escreve referindo-se a estes tesouros empacotados, “será a criação de uma biblioteca bem fornecida em local condigno. Presto a devida homenagem aos portugueses de Salamanca. Expondo-lhes o trabalho paciente para que os leiam e os conheçam.” A formação deste espírito voltado para o passado, que nos vinte anos seguintes daria edições anotadas e cuidadas de várias obras negligenciadas, dependeu não só da convicção, mas de uma capacidade de focagem. Talvez por isso não visse com bons olhos as novas metodologias analíticas que, “opondo-se a essa fecunda especialidade universitária” que seria o método dele, gera “um outro tipo de seduções ambíguas. Refiro-me ao aventureirismo dos inventores de leituras, esses peritos da descoberta onde nada há a descobrir, os falaciosos de uma filologia especialíssima que continua a levar directamente ao crime. E esses, infelizmente, proliferam nas capelas e sacristias de todo os grupúsculos ideológicos e literários.” O método de Palma-Ferreira seria outro: pesquisa, documentação, análise, reflexão com senso comum sem partir de premissas de escolas de leitura, clareza e amor pelos autores.

As muitas obras que organizou e prefaciou para a Imprensa Nacional/Casa da Moeda são um testemunho dessa entrega. Ou deveriam ser. João Palma-Ferreira está quase tão esquecido como as curiosidades que por pouco tempo salvou do oblívio. É exasperante ler-se passagens do diário e pensar como elas preconizam o seu próprio destino: “De nós apenas ficará o lixo, a poeira que anda pelo parque a rodopiar nos caminhos da nossa via-sacra.” Realmente, o grosso da sua produção sobrevive somente em alfarrabistas. A 22 de Novembro de 1971, com A Viagem prestes a lavrar boas críticas, tinha a certeza de que

Ficarei, para sempre, excluído das Selectas Literárias que, em Portugal, são o teste definitivo. É aí que todos vão parar, quer queiram, quer não. Normalmente querem. Por isso se bateram, esborracharam-se e acotovelaram-se. Dão os trabalhos por merecidos quando, à hora da bica matinal, sabem, com satisfação, que as crianças, nas escolhas, lhes soletram as prosas e os versos que eles sacaram da algibeira em dia de talento. Então, sim! É a glória! – Isto é bem comum, este sentido de superioridade.

Na verdade, a carreira estava a despontar e durante os próximos 18 anos ele iria criar uma obra rica, frutuosa, aclamada. Levou algum tempo, mas a realidade sincronizou-se com a sua profecia. Como tantas profecias ao longo da história, espero que esta também se revele falsa.

Precisamos de edições novas. Como flores do deserto que sobrevivem no solo sem água por décadas, a literatura é tenaz; isso é admirável; mas melhor é vê-las florir com todas as suas cores espectaculares. João Palma-Ferreira é um segredo dos alfarrabistas há demasiado tempo; está na altura de voltar a ganhar o lugar que merece nas livrarias e nas estantes dos leitores. Lê-lo em qualquer dos vários géneros que praticou é uma experiência enriquecedora. Na diarística, a perspicácia das suas observações quotidianas e a profundeza das suas meditações sobre a condição humana merecem-lhe um lugar entre os grandes diaristas que foram Miguel Torga, Ruben A e Vergílio Ferreira. Graças ao seu ensaísmo podemos compreender melhor a nossa história e cultura, em particular a marginal, que sobreviveu ao desdém da cultura oficial. Na ficção, pautou-se sempre por ironia e engenhosidade na expressão verbal. O próprio diário ilustra estas qualidades. A qualquer momento deparamos com uma frase simples cheia de força. “Nasceu-me um filho. Felicitaram-me. Ofereceram-me um charuto. Bebi champanhe. Agora estou por aqui, só e feliz, a tentar perfurar a escuridão do futuro.” É belo como a frase final, com a oposição entre ‘feliz’ e ‘escuridão,’ muda num triz a secura das primeiras quatro frases curtas e derruba qualquer intenção de sentimentalismo. Ou o que dizer desta? “Creio que estou a viver as melhores manhãs da minha vida. Ninguém, pelo parque. Apenas a humidade que cai das árvores sobre as folhas podres depositadas, em montes, por alamedas e canteiros.” Um truque habitual dele: desorientar o leitor. Quem imaginaria que as melhores manhãs dele incluiriam folhas podres? O oxímoro era uma figura que estimava bastante; algures descreve o Guadiana como uma “poça em movimento.” Há sempre uma combinação de palavras inesperada, produtora de um sorriso subtil.

“A melhor forma de viver: hibernando,” escreveu. Felizmente os homens são instáveis e não seguem os próprios conselhos. Lá em cima disse que Palma-Ferreira não sugeriu soluções para os problemas nacionais que o perturbaram toda a vida; na verdade, sugeriu, à sua maneira quieta e oblíqua: ele sabia, como já o sabia Eça, que o que nos aperfeiçoa é a nossa própria obra; nada nos dá tanta responsabilidade como nos tornarmos responsáveis pelo que criamos. Foi um estudioso e escritor incansável ao longo de uma curta mas boa carreira literária. O valor dela está por aí para quem a quiser conhecer.

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