“Para o substituir (de outro modo) há Moniz Barreto, implacavelmente psicólogo, e tão terrivelmente homem-de-livro, que quando a gente diz ‘está calor,’ ele acode logo – ‘já leu sobre isso tal e tal? leia sobre isso tal e tal!’ É pavoroso!” – Carta de Eça de Queiroz à esposa, 24 de Julho de 1893.

27 de março de 2021

Parte 2: Manual de construção dum Eça racista


Há uns dez anos que espero por isto. Pensava que, quando o racismo se cruzasse finalmente com Eça, na origem estaria a farpada no Imperador do Brasil e o subsequente artigo “O Brasileiro” que gerou um escândalo internacional em Fevereiro de 1872.[1] Resumindo: Eça e Ramalho gozaram com o Imperador D. Pedro II na sua passagem por Lisboa durante uma estadia na Europa. As Farpas eram um mensário apartidário cuja descomprimida fórmula consistia em zombar de tudo e de todos; isso funcionava porque a imprensa nacional não parava de os munir de notícias ridículas. Mas D. Pedro II parece ter sido um tipo genuinamente decente e inteligente e sente-se em cada linha o desespero laborioso ante um alvo que resiste a ser imbecilizado como qualquer deputado da Assembleia Nacional.

Mas vendo pelo lado positivo, sem esta farpa não haveria o brilhante artigo “O Brasileiro”, sátira tão subtil à xenofobia antibrasileira que os leitores da época pensaram que o autor estava a dar vazão aos próprios sentimentos. Vinte anos atrás ainda induziu o embaraçado João Medina a criticá-lo duramente em Reler Eça de Queiroz e em Eça de Queirós antibrasileiro? “O artigo era realmente achincalhante – e injusto,” asseverou sem dúvidas.[2] Esta é uma das mais duradouras tresleituras dos estudos ecianos; é como se ninguém fizesse caso das palavras de Eça no mês seguinte, “o que nós procurámos fazer no nosso precedente número foi criticar a opinião desvairada que tinha do brasileiro o vulgo desalumiado.”[3] O que Eça pensa dos brasileiros é uma dúvida que vai e vem, não deixou indiferentes Heitor Lyra e Paulo Cavalcanti. As técnicas retóricas que ele empregou, a ironia, o sarcasmo, o exagero, o reductio ad absurdum, o grotesco, a farsa, a caricatura, escondem alçapões aos literalistas. “O Brasileiro” é a súmula e desmontagem dos estereótipos que os seus conterrâneos albergavam. Eça, anos depois já vedeta no Brasil graças ao êxito de O Primo Basílio, e correspondente estrangeiro na Gazeta de Notícias, retocou o artigo ofensivo antes de o reeditar n’Uma Campanha Alegre, não se fossem repetir os mal-entendidos com o seu público. O texto passou dos brasileiros étnicos para o “brasileiro”, o português que emigra para enriquecer à custa do suor e regressa rico à pátria. O verdadeiro alvo tanto numa versão como noutra é o parasitário, preguiçoso português que o escarnece pelas costas mas vive à mama da riqueza destes empreendedores.

Dado a nossa época hipersensível, pensei que este fantasma voltasse para o assombrar. Por vezes ressurge, em condições especiais. Muitos escritores tentando singrar no Brasil, descobrem que é comercialmente vantajoso enxovalharem o Velho Mundo. É compreensível, o Brasil, além de ser o maior mercado de língua portuguesa, é também celebremente chauvinista. Por isso não são de espantar nem de condenar as seguintes declarações dum pobre escriba como Francisco José Viegas tentando fazer pela vida junto do público-alvo:

“Havia um racismo muito grande em relação ao Machado. Como se sabe, Eça era muito racista em relação ao Machado. Eça tem quase todos os pecados, ele era racista, machista... Ele era um homem muito fechado, provinciano. E ele nunca aceitou muito a concorrência do Machado. Na verdade, Machado tinha um humor absolutamente genial. Eça tinha medo desse humor. Por outro lado, Eça achava que Machado era apenas um mulato lá do outro lado do mar, do Brasil, onde havia macacos na rua, e araras... E isso era muito estranho para o Eça.”

Assim nos educou num filme gravado por volta de 2010 na Livraria Saraiva.[4] O sr. Viegas adora esta tese de que Eça nutria preconceitos contra Machado por ser mulato e temia a sua concorrência. “Machado é um dos grandes monumentos da nossa língua e um autor que o preconceito português afastou da leitura durante anos. Havia a ‘concorrência’ com Eça, o despeito pelo facto de ser mulato e a ideia de que do Brasil só vinha literatura de extração inferior ou mais ligeirinha.”[5] Espero que tanta bajulice tenha ao menos servido para vender mais umas centenas de exemplares de Longe de Manaus. A única parte correcta é o Machado ser um monumento da língua.

Essa do “como se sabe” não tem qualquer credibilidade. Na verdade, não se sabe quase nada sobre o que Eça pensava de Machado. É conhecida apenas uma carta de Eça a ele; e em lado nenhum o volta a mencionar. Os testemunhos de que Eça o leria provêm de terceiros, nomeadamente brasileiros expatriados que privaram com Eça em Paris e que, sendo homens cultos, queriam à força acreditar que estes dois autores que admiravam fossem amigos íntimos. Depois da morte de Machado, escreveu Lyra em O Brasil na Vida de Eça de Queiroz, houve grande desilusão quando não se encontrou no espólio dele a volumosa correspondência mantida com Eça que todos pensavam que ia aparecer.[6] Sabe-se que Machado lhe ofereceu um exemplar de Quincas Borba com uma fria e sucinta dedicatória, mas nem sabemos se Eça o leu. O pretenso preconceito racial de Eça contra Machado não se fundamenta em nenhum documento. Eça também não podia temer a concorrência dele pela simples razão de que sempre vendeu melhor do que ele no Brasil. Quando virou vedeta assim que Amaro e Basílio chegaram ao Brasil em 1878, Machado era o autor de quatro romances sem êxito comercial nem resenhas entusiasmadas. Isto foi estudado por Hélio de Seixas Guimarães em Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. Tão despercebido passou A Mão e a Luva que a única resenha conhecida saiu na pouco prestável revista O Novo Mundo editada em Nova Iorque. Em 1893, um plebiscito num jornal brasileiro certificou esta preferência na hora de apurar os seis melhores romances de língua portuguesa: Eça arrebatou o 1.º, 2.º e 4.º lugares; Machado o 3.º e 5.º, respectivamente As Memórias Póstumas de Brás Cuba e A Mão e a Luva.

O fascínio de Viegas é pelo autor de Brás Cuba para a frente. Quanto a isso, há uma teoria bem fundamentada de que Machado foi obrigado a mudar a sua concepção de ficção porque Eça a pôs em xeque. Ele percebeu que não sobreviveria na era pós-eciana dando ao público a fórmula de Helena e Ressurreição, tinha de se reinventar, abandonar um modelo caduco, era isso ou morrer. Debelada uma crise criativa, reapareceu com Brás Cuba (1881), completamente diferente da sua ficção anterior. João Cezar de Castro Rocha analisou isso em Machado de Assis: por uma poética da emulação.

Tirando estas manigâncias esporádicas, a tese do Eça antibrasileiro não tem acolhimento em lado nenhum. Nem Viegas seriamente acredita nela se não estiver a galar auditórios em Paraty. Ao menos não se lembrou de trazer o assunto à baila quando num recente podcast protestou apaixonadamente contra os que agora pintam Eça como racista.[7] Bem, que seja bem-vindo por fim ao lado certo.

Num censo por alto à obra de Eça, não lobriguei outra fonte de ofensa racial ou étnica. Se glorificou a obra de engenharia colonial que foi o Canal do Suez,[8] dedicou também páginas luminosas e compassivas aos felás, os trabalhadores do Nilo.[9] Quanto ao seu consulado em Cuba, está certificada a denúncia da legislação que enredava imigrantes asiáticos num esquema de escravatura legal. Cuba passara uma lei que estipulava que os imigrantes chegados depois de 1861, terminado o seu contrato de oito anos, tinham dois meses para sair da ilha ou tornarem a contratar-se; como os imigrantes eram estrategicamente sobrecarregados de dívidas devido a serem multados “à mais efémera infracção”, não poupavam o suficiente para a viagem de regresso. Assim, “a polícia recolhe-os nos depósitos e é obrigado a servir mais 8 anos. – Nada justifica estas legislações desumanas”.[10] O anti-semitismo não teria pegado: Eça ficou consternado com “a agitação na Alemanha contra os Judeus”, este “extraordinário movimento antijudaico, esta inacreditável ressurreição das cóleras piedosas do século XVI”;[11] e quanto à divisória questão judaica do seu tempo, “senti grande tristeza com a indecente recondenação do Dreyfus.”[12]

 

 As possibilidades estavam rapidamente a esgotar-se. O que restava? Remoques elitistas à cultura norte-americana? Bem, isso não é xenofobia, é apenas o esquerda.net, está tudo bem. Há comentários dispersos à balbúrdia da América Latina, mas aí jogavam finanças, não raça: todos falavam mal da América Latina no século XIX devido à sua exímia produção de manchetes sobre golpes de estado e bancarrotas nacionais; ele teria gastado muitos bicos de lápis a congeminar algo mais escabroso do que os latino-americanos diziam de si próprios. Que alternativa além do brasileiro? Sinofobia n’O Mandarim? Era possível: a premissa da Teoria Crítica da Raça, um conjunto de instrumentos de análise grosseiros, é de que todo o discurso dos brancos sobre não-brancos é intrinsecamente racista, logo não lhe faz diferença que O Mandarim seja uma farsa onde tudo e todos são estilizados de acordo com regras genológicas. Podia, pois, estar aqui a entrada triunfante de Eça na Teoria Crítica da Raça. Porém, eu continuava a torcer por “O Brasileiro”.

Felizmente, trocaram-me as voltas e fortaleceram a minha fé no poder infinito da imaginação. Eduardo Lourenço disse em Heterodoxia II que tudo tem duas leituras: a histórica e a mítica. Eu sou dado a datas e data:

A 18 de Fevereiro, Vanusa Vera-Cruz Lima, actualmente a fazer um doutoramento em Estudos e Teoria Luso-Afro-Brasileiros na Universidade de Massachusetts Dartmouth, deu uma palestra por Zoom com o título “É Os Maias (1888) de Eça de Queiroz um romance racista?” Carlos Maria Bobone, resenhista de livros, conectou-se, de todos os que intervieram até agora foi aparentemente o único exposto às exegeses e hermenêuticas. No dia 21 saiu o seu artigo no Observador. O contributo catalisador de Bobone foi agudizar o assunto, trazê-lo à praça pública e dar a entender que queriam censurar Os Maias ou Eça, ou as duas coisas. Foram estes os parágrafos que suscitaram esse receio:

   A pergunta prometia deixar ferida. Denunciar Camões ou João de Barros seria coisa tolerada por um país que já não puxa o fôlego para encher o peito de orgulho; agora Eça, o grande pantomineiro, o monóculo que nos habituámos a usar para exibir argúcia mordaz e capacidade de encontrar os podres da nossa sociedade? Eça é o responsável por desvendar as nossas pequenas patifarias e reciclá-las em riso medicinal; se o purgante traz também doença, se deixa de haver em Eça a pureza malvada que denuncia os maus costumes para trazer também ele o vício nas gargalhadas, o que é que nos resta?

   É natural, então, que o povo tenha gritado como se de um assalto se tratasse quando uma doutoranda da Universidade de Massachussets Dartmouth se atreveu a proferir uma public lecture sobre o tema “São os Maias de Eça de Queiroz um romance racista?”. Afinal, acusar Eça é roubar-nos esta última réstia de dignidade desesperada de quem tem pelo menos aquela supina prova de inteligência preguiçosa, a capacidade de encontrar o ridículo que nos circunda.[13]

Na verdade, ninguém gritou antes de ele soar as tétricas trombetas. Bobone usa habitualmente o reductio ad absurdum, o que é aliás expectável num artigo centrado em Eça, quando entramos no centro de gravidade dele é quase irresistível imitar-lhe o estilo. Mas em momento nenhum indicou que Lima tencionasse recomendar a remoção do livro do currículo escolar ou qualquer outro acto censório. O que Bobone fez foi levar a sério o tema da palestra e rebater uma oponente equilibrada e serenamente. Mais valia ter tudo ficado por aqui, e no tocante à imprensa ficou.

Inexplicavelmente, este adormecido assunto despertou energicamente uma quinzena depois quando no dia 7 de Março foram reproduzidas no Diário de Notícias, no Expresso e no Público declarações de Lima à Lusa. Aí, provavelmente sem ter lido o artigo de Bobone, reiterou que Os Maias é racista porque a linguagem está impregnada de antinomias entre bom/branco e mau/preto e devido a ideias provocantes professadas pela personagem João da Ega. Compreensivelmente, não sossegou os ânimos tamanha enormidade interpretativa agora difundida por três periódicos.

“Em Portugal é assim: é domingo e de repente temos um especialista em Eça de Queirós em cada esquina!” escreveu o professor Pedro Schacht Pereira na página do Facebook.[14] O prof. Schacht Pereira tem estado vigilante para impedir o debate de cair na palhaçada. Há uns anos publicou Filósofos de trazer por casa: cenários de apropriação da filosofia em Almeida Garret, Eça de Queirós e Machado de Assis, um terço do qual oficialmente faz dele especialista em Eça. Avancemos com tacto, tentemos estar à altura do seu intimidante escrutínio.

Uma questão interessante mas microscópica sobre a intenção do autor e como um texto literário deve ser interpretado foi raptada pelo zeitgeist e como um refém doutrinado por uma célula terrorista passou a comunicar exclusivamente por palavras de ordem e slogans. A palestra e declarações (p&d) juntaram-se a bom tempo a uma atarefada série de alegados ataques a uma identidade nacional que inclui protestos contra a estátua de António Vieira, a controvérsia sobre o termo “Descobrimentos” e o destino a dar aos buxos da Praça do Império. Mas a infelicidade de esta polémica ter revelado mais uma vez a índole nacionalista dos portugueses é atenuada por ter posto a nu o nosso excepcionalismo telepático. Eis André Barata: “Certamente, não foi a qualidade da investigação apresentada o móbil do sobressalto.”[15] Que sabe o sr. Barata sobre mim para adivinhar o que me motivou? Esta questão extravasou as medidas porque ninguém, muito menos as caixas de comentários racistas, tem deixado esquecer que Lima é cabo-verdiana, o que além duma ingerência duma estrangeira contra a nossa identidade, é uma traição histórica, ou não sabe essa tipa que nem haveria Cabo Verde sem os portugueses?! Simpatizo bastante com a indignação contra esses cretinos; mas a argumentação da p&d não deixa por isso de ser menos sofrível.

O debate depois foi à vida porque entrou em campo a palavra deletéria “liberdade”, o mandaloriano das discussões, nunca falha o alvo. Se nos ficássemos por “excelência” e “qualidade”, por exemplo se declarar que o método induzido da p&d é risível comparado com as brilhantes interpretações de Linda Hutcheon, Patricia Waugh, Marthe Robert, Kathleen Raine, Rosalie Collie, que é aliás um retrocesso em relação ao procedimento da crítica literária desde o Formalismo russo e do New Critcism, bem, isso é pedantesco porque primeiro precisamos de pressupor um oponente lido no melhor que a crítica literária nos deu. É elitista porque não devemos fazer hierarquias nem juízos de valor, categorias como “excelência” e “qualidade” são tão pouco demóticas. Mas com a introdução de “liberdade” podemos rondar o cerne de debate e passar aos bons sentimentos e posições que ninguém sensato contestaria. Novamente Barata: “Isto não é calar o debate, é a sua regra. Ora, quando se visa com a magnitude a que se assistiu alguém que está numa fase de investigação precoce, ainda nem passou a escrito e publicou o que simplesmente começou a pensar e apresenta num seminário, que calhou ser gravado, é a liberdade que se ressente”. Posso objectar que, se Lima na fase preliminar já está certa o suficiente de que Os Maias é racista para recomendar que edições escolares tragam notas explicativas, o que não recomendará se a tese for aprovada.

É aluado temer-se a restrição da liberdade académica quando a palestra já ocorreu e a tese está em curso; estamos justamente a ter um debate público graças ao uso dessa liberdade. Mas, agora, pesam os princípios: os que pensam que a investigação académica está a ser coagida versus os que pensam que os clássicos estão prestes a ser saneados. Enquanto brincam aos princípios abstractos, ninguém se inquieta que na balança esteja a reputação dum homem concreto. A Barata, Pereira, Francisco Bethencourt, que se plantaram ao lado de Lima, ainda não os vi solidarizarem-se uma única vez com a argumentação da p&d; Pereira até deu a entender que pensa o contrário; Barata tem-se esquivado a afirmar frontalmente o que pensa dela. Só lhes importa o princípio de que deve haver liberdade para se investigar se Os Maias é ou não é racista, como se alguém que discordasse tivesse poder para o impedir. Não me espanta que passem em silêncio por cima do frouxo método, nenhum deles o usaria na sua investigação académica. Se Bethencourt tivesse defendido em História das inquisições Portugal, Espanha e Itália que a Inquisição foi afinal de contas uma instituição benéfica e humanitária porque há testemunhos textuais escritos pelos punhos de inquisidores em que juram que estavam preocupadíssimos em salvar almas, que é o mais importante bem dum pecador, teria sido expulso às gargalhadas da Universidade. Esse é o nível de argumentação demonstrado na p&d. Em vez de encorajar uma aluna a alcançar o nível de exigência que impôs a si mesmo, vai de bom grado sacrificá-la no altar dos princípios. Depois, voltará a comportar-se como um universitário zeloso da qualidade do raciocínio, do rigor, da excelência na investigação dele. Mas até lá ele e os outros terão de fingir que não entendem como é possível haver quem não priorize os contornos racistas do assunto; terão de se mostrar chocados, até ofendidos por haver desprezíveis estetas nefelibatas alienados da importantíssima agenda mediática, perdidos nos escaninhos da análise textual e da arte pela arte. Cada um escolhe a sua escotose.

Da contra-argumentação de Bobone ninguém fez caso; o que viralizou foi a histeria de que querem censurar ou cancelar Os Maias. Apesar de ter citado e resumido a argumentação de Lima, Raquel Ribeiro acusou-o até de nem ter assistido à palestra,[16] ao passo que Diogo Martins tentou fazer do teor da palestra um não-assunto:

“Ao fim e ao cabo, ninguém leu a tese da doutoranda porque a tese ainda não existe; e uma montagem de tudo quanto foi divulgado sobre o assunto – o ponto de partida da autora, o contexto da sua investigação, os seus objectivos – demonstra apenas que todo o contra-ataque erguido denuncia a infantilização do espaço público, a sua ruidosa carcaça, que se presta a andar a reboque dos humores do Facebook.”[17]

É irrelevante se a tese já foi completada ou não; está a ser julgada a p&d. Ribeiro ignorou a problemática argumentação (desconfio que o único envolvido neste debate que ninguém realmente leu foi Bobone) e em vez disso deu a entender que a palestra foi uma inócua, costumeira actividade académica, como se em causa estivesse o formato e não o conteúdo:

“Os leitores estarão certamente familiarizados com a forma como académicos especulam nos estudos literários: o título da palestra é uma pergunta e uma pergunta é, em si, uma especulação. Para se desenvolver qualquer tese, o objetivo é fazer perguntas: até que ponto há linguagem racista n’"Os Maias"? Pode dizer-se que é um romance racista? Se o contexto da elite burguesa lisboeta do final do século XIX era a de um país imperial, que tinha enriquecido à custa da escravatura e do ouro do Brasil, faz sentido analisar a obra e a sua linguagem nesse contexto?”

Isto dá a impressão de que Lima fez uma análise objectiva e desinteressada, como se estivesse a surpreender-se com as próprias conclusões a tais inquirições à medida que ia divagando diante duma plateia digital. Mas a sinopse anexa ao anúncio mostra que um juízo fora feito de antemão e uma sentença passada sem direito a recurso:

“A percepção e representação de pessoas negras em Os Maias (1888) dependem de agressão, desumanização e degradação. O meu propósito é analisar a linguagem usada por Eça de Queirós no romance quando reflecte sobre pessoas negras, através de personagens, narração, discurso e escolha de palavras, entre outras abordagens romanescas. O objectivo é aumentar a consciência e entendimento do papel que a raça desempenha na obra de Eça analisando não apenas linguagem racista ofensiva [há linguagem racista não ofensiva?] usada neste romance clássico, híper-canónico mas também desmesurada idolatria de branquitude detectável na narrativa.”

Isto é comicamente sensacionalista. Lima mal esconde o deleite em escavacar algo sagrado, não apenas canónico, mas híper-canónico, subtil gradação cuja definição certamente merecerá um capítulo inteiro devidamente avalizado por falanges de bibliografia. Depois disto não há qualquer apelação: ela partiu do princípio de que Os Maias é racista e a sua função, quase acessória, é simplesmente mostrar como. Esta prepotência condiciona de imediato a relação do ouvinte com as conclusões: a não ser que esteja agindo por má fé, ignorância ou atavismo (se odiar os “‘inimigos’ dos conservadores – as feministas, os anti-racistas, os gays, os activistas políticos”, como Ribeiro sumarizou), não há alternativa racional senão concordar com ela. Ribeiro também revelou ressentimento contra o estatuto curricular de Os Maias: “Se o leitor, que leu ‘Os Maias’ (muitos, obrigatoriamente, na escola), não acha nenhuma destas perguntas legítimas, pode interromper a crónica neste momento e passar à secção de desporto, onde parece haver inúmeros consensos sobre se treinadores precisam de licenciaturas para pôr 11 tipos atrás da bola.” Tudo o que investigar Eça é legítimo, até conheço estudos anteriores onde foram feitas semelhantes perguntas; simplesmente o meu conhecimento da obra dele em múltiplas vertentes me permite disputar as conclusões apressadas da p&d.

Há aqui uma piada fácil à espera de nascer: os salazaristas entendem o conceito de ironia melhor do que os Teóricos da Raça. É um facto que houve limites à apropriação do Estado Novo; a sociedade racista, imperialista, colonialista, que abertamente acreditava que estava a civilizar África e se ufanava do Padroado no Oriente, não se lembrou de usar passagens de Os Maias para justificar a subjugação do africano; não tentou convencer ninguém de que certas frases atribuídas a João da Ega reflectissem o pensamento de Eça – sabiam que isso nunca convenceria ninguém? Estamos a viver em tempos ainda mais fanáticos e sobrepovoados de agelastas? Não necessariamente. O Estado Novo não herdou desamor às colónias, os republicanos acreditavam no império; o que herdou da Geração de 70 foi o ideário pessimista, socialista e jacobino em que se reviam mais ou menos os intelectuais antes de 1926. Foi por isso que Luís Forjaz Trigueiros precisou de inventar um Eça construtivo e anti-democrático. Fazer dele um imperialista de modo a validar o ideário da ditadura era questão de somenos porque até a maioria dos intelectuais anti-salazaristas achava o império benigno e indiscutível.

A questão racial em Os Maias merece ser estudada, e é o que me dá esperança de que saiam proveitos da tese de Lima. Será mais uma leitura que enriquecerá o nosso crescente mas inexaurível conhecimento de Eça. Que a Geração de 70 pensou bastante no império é consabido. O “feitiço do império” foi inventado no tempo de Teófilo quando criou o Dia de Camões como rampa de lançamento do Partido Republicano, cujo programa visava restaurar a glória às colónias votadas à decadência por causa duma monarquia ineficiente. Oliveira Martins, em O Brasil e as colónias portuguesas, paternalmente aconselhou o humanitário genocídio dos índios brasileiros para acelerar o desenvolvimento do Brasil, alma minha gentil. E a própria relação de Eça com o império não se resolve com a palavra mágica “ironia”. Faz-se muito da blague acerca das colónias (“Vendamo-las!”[18]) como se fosse um anti-colonialista avant la lettre, mas ignora-se o desespero subjacente de quem preferia que em vez de vendidas fossem tiradas da sua má administração ruinosa de modo a geraram riqueza para a Metrópole. “Santa cordialidade de relações! Às vezes a Metrópole remete-lhes um governador; agradecidas, as colónias mandam à mãe pátria – uma banana.”[19] Talvez conservar as colónias não fosse má ideia desde que geridas de modo a mandarem mais do que isso; poderemos nunca saber ao certo. As relações complexas e ambíguas da Geração de 70 com a raça, o colonialismo e o império merecem mais estudos. Mas quem leu as declarações à Lusa ficará com a impressão de que estamos a entrar numa audaciosa nova era dos estudos ecianos:

Para Vanusa Vera-Cruz Lima, o fim da leitura de Os Maias não é uma “solução” e nem esse o propósito da análise que fez à obra, mas sim a consciencialização das pessoas em relação aos “significados que até agora não têm sido observados, nem discutidos nos materiais escolares que acompanham a leitura da obra”.

Eça já é lido por lentes pós-colonialistas há décadas. Espero confortar Barata, Bethencourt, Martins e Ribeiro ao assegurar-lhes que há estudos acerca da representação do Egipto, do Oriente e das colónias africanas na obra dele. Lima vai-se juntar a Laura Cavalcante Padilha, Maria Carolina Souza Silveira, Patrícia Ayres Pereira, Thomas Bonnici, Regina Zilberman, Sílvio Marcus de Souza Correa, Graça Videira Lopes, José Carvalho Vanzelli, Rosana Carvalho da Silva Ghignatti e Luís Manuel de Araújo. Eis alguns palpites porque ninguém ouviu falar deles. Porque esses estudos flutuam dentro da academosfera. Porque muitos são brasileiros, e é problemático que os ecianistas portugueses descurem este assunto. Porque não apanharam o zeitgeist certo. Porque não saíram a semanas de o primeiro-ministro António Costa equiparar Mamadou Ba a André Ventura, da petição para se deportar um cidadão português, da controvérsia sobre Marcelino Mata, dos buxos da Praça do Império. Porque Lima deu azo à manifestação de sentimentos racistas cada vez mais prevalecentes. Porque os estudiosos anteriores partiram duma atitude descritiva em vez de cominativa. Porque usaram títulos neutros e vagos típicos da universidade que imploram que alguém se dê ao trabalho de os ler até ao fim antes de saber de que se trata. Porque nenhum afirmou categoricamente que Os Maias é racista, chamariz sensacionalista que é também muito o produto do nosso tempo. Ninguém pergunta se Os Maias é racista para anticlimaticamente emitir o instintivo “Não”. Tratar um texto híper-canónico assim não tem piada.

Em causa não está a legitimidade da leitura pós-colonialista, mas a qualidade da análise até agora. Bobone, António Carlos Cortez e eu temos motivos para estarmos preocupados com os métodos usados. Qual é a diferença entre Lima confundir Eça com João da Ega e Forjaz Trigueiros inferir dumas linhas de Fradique Mendes que Eça era anti-parlamentarista? Porque é que devo ignorar nesta ocasião os limites à literalidade por que alguns dos melhores investigadores se orientaram e orientam? Uma obra de ficção é a súmula duma série de decisões contribuindo para um efeito total que integra proposições com diferentes níveis de autenticidade espalhadas por autor, narrador e personagem que se atraem e repelem complexamente. Seria salutar destrinçar se o ignorar este princípio elementar da análise textual é inato à Teoria Crítica da Raça ou se foi a inexperiência de Lima que a levou a separar trechos do todo e a isolá-los como suspeitos dum crime para serem intimidados, coagidos e espancados até confessarem o que o inspector quer ouvir. Se nos guiarmos por estes audazes critérios, O Remorso de Baltasar Serapião apregoa a violência doméstica, Auto dos Danados é pró-estado-novista, Levantado do Chão apoia os latifundiários alentejanos, A Cidade das Flores é pró-mussolinista, Quincas Borba promove o darwinismo social.

Induzir que Os Maias é racista da pressuposição de que as opiniões duma personagem reflectem o ideário do autor é um paralogismo que emboca na Falácia Biográfica, segundo a qual é um erro interpretar obras literárias do pressuposto de que contêm a vida ou as opiniões do autor. Compreendo que o New Criticism possa não agradar à Teoria Crítica da Raça, mas quem o ignora arrisca-se ao retrocesso do modelo biografista do século XIX. Certamente é mais fácil: se partirmos do princípio de que todos os autores no século XIX foram racistas, sabe-se à partida qual deve ser a conclusão de qualquer análise d’Os Maias. Isto não é paródia, foi o teor da palestra. No resumo de Bobone: “Ou Os Maias seria um romance ativamente anti-racista, em que, mais do que o incesto, pesasse na alma de Carlos da Maia o fardo do homem branco, ou então seria, como tudo o resto, racista.” Um estudioso deveria ficar preocupada quando à partida as possibilidades podem ser assim tão binariamente arrumadas. Ribeiro esmerou-se em artimanhas para distorcer o artigo de Bobone ao passo que inocentou a argumentação superficial da p&d:

Segue-se chorrilho de ódio nas caixas de comentários. Daí saltou para outros media, mas já com o título bombástico: "'Os Maias' contêm linguagem racista, diz palestrante nos EUA". E nunca mais parou de viralizar: o que nos resta? A Capitu traiu o Bentinho? A Amélia é que seduziu o Padre Amaro? Blimunda vê a alma das pessoas em jejum porque é mesmo bruxa? Sinais de Fogo tem cenas homoeróticas? Sá-Carneiro escreveu sobre orgias? Parangonas de telenovela: porque é assim que, nas redes sociais, se discute literatura.

Mas vejamos: “‘Os Maias’ contêm linguagem racista, diz palestrante nos EUA” não foi uma manchete bombástica inventada por Bobone, é a premissa delineada na sinopse da palestra. Porque é que não escolheu uma formulação neutra? “A construção do sujeito africano em Os Maias”, ou “Perspectivas raciais em Os Maias: o caso de João da Ega”, etc. Já agora: “A Capitu traiu o Bentinho?” é uma pergunta legítima que os investigadores têm andado a fazer acerca de Dom Casmurro desde 1899 porque Machado de Assis deliberadamente introduziu mecanismos textuais na estrutura da narrativa para manter esse enigma irresoluto até hoje. “A Amélia é que seduziu o Padre Amaro” é outra premissa legítima, embora do que me lembro responderia que não. “Blimunda vê a alma das pessoas em jejum porque é mesmo bruxa”, “Sinais de Fogo tem cenas homoeróticas” e “Sá-Carneiro escreveu sobre orgias” não são parangonas, são descrições objectivas: A Confissão de Lúcio descreve uma orgia; há cenas homoeróticas em Sinais de Fogo; e Blimunda realmente tem o poder sobrenatural de em jejum ver almas. Isto é tão descritivamente incontroverso como Guerra e Paz se passar durante a invasão napoleónica da Rússia. O que não é incontroverso nem consensual nem um dado adquirido é toda a linguagem dum autor branco oitocentista ser racista, Os Maias ser racista e Eça ser racista. Mas depois do artigo de Bobone foi exactamente isto que Lima reiterou: “todas as personagens do romance são um produto do ambiente em que o branco é considerado superior em relação ao negro”.[20] Para ela não há dúvida, nada mais a debater. Cuidou simplesmente de transmitir a Verdade.

Bobone não se convenceu e ofereceu contra-argumentos:

Explica a palestrante que, ao longo d’Os Maias, há uma associação, na linguagem do narrador, entre a cor preta ou a escuridão e ideias ou sentimentos negativos. Pedro da Maia tem “crises de melancolia negra”, Maria Monforte, que tem olhos azuis, encoleriza-se e estes passam a parecer “negros de cólera” e há uma “escada escura e feia” e quartos “alegres, forrados de papéis claros”.

Eça provavelmente saberia que “melancolia negra” é tautológico visto que melas significa “negro” em Grego, portanto ou foi um deslize, ou uma associação clássica, ou uma das suas habituais repetições enfáticas. Mas que outro adjectivo cromático pode modificar “melancolia”? Eça não era Eugénio de Castro, não usava a rica paleta simbolista para variar com “melancolia lilás” ou “melancolia argêntea”. Quem é que fica figurativamente “ultramarino de cólera” ou “auricerúleo de cólera”? Louco por aliteração como sou, não hesitaria em “melancolia melaxanta”, mas Eça usava o léxico mais comum possível para apagar o narrador, conforme as preferências do seu tempo. Usava associações habituais, escreveu “melancolia negra” e “negros de cólera” porque sabia que os seus leitores falavam assim no dia-a-dia.

A melancolia está ligada a estados de depressão, tristeza, que por razões culturais e biológicas associamos à cor negra. Um dente cariado enegrece antes de se desfazer como maçapão; o sangue dentro duma unha pisada escurece; o astigmatismo é acompanhado por pontos pretos em frente dos olhos (embora eu veja também teias de aranha brancas; nunca as achei positivas por isso); a velhice traz à pele manchas acastanhadas derivadas de insuficiência renal crónica; carne putrefacta é escura em redor duma ferida gangrenada. Biologicamente, é normal não nos afastarmos da associação entre negro e fealdade, morte, negatividade, são hábitos primitivos, metáforas corporais antigas e visceralmente conectadas com a mais íntima sensação do EU.

A rotação da terra sobre o seu eixo cria a noite, uma hora predilecta para se cometerem crimes. Quando Eça chegou a Lisboa em 1867, havia iluminação pública em Portugal há pouco mais dum século e praticamente concentrada na capital. Em Verdemilho e Coimbra a noite suscitaria pavor que nem hoje fazemos ideia. Ele na infância porventura ouviu histórias das quadrilhas de salteadores que vigiavam as estradas nos anos seguidos à Revolução da Maria da Fonte. Hoje em dia quando dizemos que vamos “sair à noite”, o que queremos dizer é que vamos passar horas dentro de transportes iluminados que nos deixam à saída de lojas iluminadas onde marcámos o encontro com os amigos, e depois caminhamos juntos por ruas iluminadas ladeadas pelos néones de montras iluminadas, até chegarmos a cafés e bares iluminados. Em 1940, 90,1% da população do distrito de Guarda não estavam sequer ligados à rede eléctrica; Bragança subia aos 96%. Porto já ia nos 59,8%. Aveiro, o distrito onde Eça nasceu, chegava aos 79,3%.[21] A uma pessoa que viveu num mundo assim talvez se deva perdoar por ter imbuído a escuridão de conotações negativas.

A Teoria Crítica da Raça, porém, dirá que isto é realmente um construto social que pode ser modificado através da doutrinação correcta. De facto, a conotação das cores é variável. O século de Eça viveu sob o legado de Johann Joachim Winckelmann (1717–1768), um helenista que influenciou o viés de que a cor branca é o mais alto ideal de beleza.[22] No tempo de Winckelmann, estavam a ser descobertas estátuas gregas na bacia mediterrânica perfeitamente brancas, aquele mármore branco que imediatamente associamos à estatuária grega. O problema é que essa brancura resultou do desgaste do tempo, pois as estátuas gregas eram na verdade coloridas, fantasticamente garridas, como figurinos dum filme de Tarsem Singh.[23] O pormenor interessante é que os contemporâneos de Winckelmann e Hegel estavam a par disso, mas premeditadamente o ignoraram em prol duma ideologia estética que põe o branco não só como o píncaro da beleza mas ainda por cima o instituiu como o fundamento da matriz cultural europeia herdada dos gregos.[24]

Isso é lamentável e ainda bem que classicistas e helenistas estão por fim a emendar esse  mal-entendido. Esse viés inconsciente pode ter até algo que ver com a preferência de Carlos da Maia pela loura Maria Eduarda, mas novamente estamos a simplificar e politizar algo mais antigo e profundo. Se Winckelmann, Hegel e outros idealizaram a cor branca em detrimento de factos, foi porque havia um historial anterior que não tem exclusivamente que ver com raça. Se recuarmos à procura da origem, chegamos aos mitos de criação primitivos. A luz e a escuridão originalmente não têm nada que ver com pigmentação da pele. A criação tende a começar com um jorro de luz saídos da escuridão do caos disforme. Os hebreus pensam que Deus fez o mundo pronunciando יְהִי אוֹר‎. Prometeu ofereceu o fogo da inteligência aos homens. Segundo os bosquímanos, originalmente os homens e os animais viviam num submundo sempre resplandecente e onde nunca faltava comida; mas um dia o deus Kaang trouxe-os todos à superfície; no primeiro anoitecer, os homens tiveram medo porque os animais viam no escuro mas eles não; então fizeram uma fogueira; mas o fogo afugentou os animais, que nunca mais falaram aos homens. Num mito dos aborígenes australianos, a Mãe-Sol é enviada à Terra para despertar os espíritos com os seus raios de luz. No mito iroquês, antes de haver Sol e Lua, o Povo do Céu vivia numa ilha cuja luz provinha duma árvore. Geralmente, nos mitos da criação as primeiras coisas a serem criadas são o Sol e a Lua assim como as distinções entre dia e noite, às quais são dadas conotações positivas e negativas: o dia e a luz tendem a estar ligados à segurança, ao bem-estar, a noite e a escuridão ao medo, ao mal. Isto não teve que ver com hierarquias raciais, ainda que a relação subalterna a que os escravos africanos estiveram submetidos aos europeus desde o século XVI tenha reforçado estas associações. Mas precisamos mesmo dos instrumentos analíticos da Teoria Crítica da Raça para percebermos porque é que um romancista em 1888 entreteceu escuridão e fealdade?

A complicação é que não há nenhuma regra que determine que deva ser assim, e de facto a conotação das cores não é preto no branco. Como Bobone observou:

E embora a palestrante identifique várias passagens em que a brancura está associada à beleza feminina, também os cabelos negros da filha de Maria Eduarda são belos (apenas por contraste, diz a oradora, mas é claro que a graça do cabelo negro na pele branca não está no facto de um ser feio e a outra bela) e também a palidez pouco saudável do Eusebiozinho é feia.

Esta objecção é razoável. Eu não ouvi a palestra, mas declarações posteriores de Lima à Lusa não desmentem Bobone: “Ao celebrar extravagantemente a branquitude, o romance envia uma mensagem de que a negritude não é algo de que se orgulhar e, portanto, como o preto e o branco estão sempre em oposição, a glorificação de um, rebaixa o outro”.[25] O Público citou-a: “A inferioridade dos africanos e o desdenho pelo negro ou qualquer aspecto relacionado à raça negra é presente na linguagem do narrador e reforçada através de acções e pensamentos de personagens e da idealização da branquitude em crianças, homens e principalmente mulheres”.

Bobone não subscreveu a insólita premissa de que João da Ega reflecte as opiniões de Eça sobre a escravatura e o colonialismo:

“Ora, que a tolice da ideia não seja imediata aos olhos de quem lê, que se veja uma expressão séria de racismo numa crítica claríssima da leviandade e das opiniões pour épater de João da Ega (crítica acentuada pelos risinhos tolos de D. Maria, deliciada a ouvir as atoardas), só pode ser explicado pela vontade de ler o livro de uma maneira já pré-definida.”

Isto é outra objecção razoável. Novamente, as declarações à Lusa não indiciaram nenhuma dúvida. Entre o dia 21 de Fevereiro e 7 de Março, Lima não se mostrou muito receptiva a críticas construtivas. Temos motivos para suspeitar que ela decidiu há muito o que está certo e nem considera dignas de consideração vozes contrárias. Há a Verdade, o que importa é transmiti-la; não estamos aqui para discutir hipóteses abstractas, mas para mudar mentalidades, corrigir modos errados de pensar, transformar o mundo.

O psicólogo Leonard Orr formulou décadas atrás a teoria cognitiva do Pensador e do Provador. Segundo ele, na mente coabitam duas entidades, cada uma com funções diferentes. Uma é o Pensador, que tem poderes quase ilimitados: o Pensador é capaz de pensar que o universo foi criado por Deus, que descendemos de extraterrestres, que Napoleão nunca existiu, que os judeus são uma raça inferior, que apesar de ser inferior é poderosa o suficiente para secretamente dominar o mundo, que a terra é plana, mas também que é oca, que a Atlântida realmente existiu, que a América foi na verdade descoberta por árabes no século XII, que o 11/9 foi um golpe do governo americano. A tarefa do Provador é mais simples e uma só: o que o Pensador pensa, o Provador prova. Portanto, se uma doutoranda quiser acreditar que Os Maias é racista, não há nada a fazer; tal como não se consegue dissuadir quem pensa que a Terra é plana usando fotos tiradas do espaço do planeta esferóide. Quer dizer, Richard Whatley também usou a lógica em 1819 para provar que Napoleão nunca existiu (apesar de estar naquela altura em prisão domiciliária na ilha de Santa Helena). O Provador num génio satírico como Jonathan Swift levou à morte anunciada de John Partridge. Partridge foi um astrólogo famoso no seu tempo, o autor de almanaques anuais, e inimigo da Igreja Católica. Swift, que era católico, usou o pseudónimo Isaac Bickerstaff para prever que no ano de 1708 Partridge morreria a 29 de Março. Nesse dia, um panfleto de Swift sob o próprio nome confirmou o passamento do pobre Partridge. Partridge protestou por folha pública que estava vivo, mas Swift logicamente replicou que um escrito não é prova de que alguém está vivo pois pode ser falsificado. Alegadamente, a partida de Swift trouxe dissabores a Partridge até ao verdadeiro fim da vida.[26]

Fingindo abertura, generosidade, tolerância, Lima tentou desviar o teor das críticas que lhe têm dirigido fazendo-se de incompreendida:

“Penso que é importante separarmos o romance, que é uma das maiores obras de arte da cultura portuguesa, das passagens racistas nela encontradas”, disse, acrescentando que o que está em causa na sua análise é a obra e não o autor, Eça de Queirós, pois “para tal seria preciso um estudo muito mais aprofundado, investigação profunda sobra a vida dele e seus escritos profissionais e pessoais”.

Mas quem trouxe Eça à baila foi ela ao vincular as ideias de Ega a ele. Bobone, que à data desta entrevista à Lusa era o único na imprensa que se manifestara, usou precisamente excertos da obra para a rebater. Até agora esse tem sido o ponto fulcral de quem discorda: Lima está a confundir autor e obra e, eis a falácia, a presumir que o romance é apenas um veículo transparente e neutro do autor que fala através das personagens em vez de criar consciências autónomas que produzem pontos de vista múltiplos, conflituosos e contraditórios.

A nota pedagógica numa edição escolar é redundante porque Eça já a interpolou no texto:

   Mas o conde interpelava-o, o conde queria a opinião do seu amigo Maia. Tratava-se do livro de um inglês, o major Bratt, que atravessara a Africa, e dizia coisas perfidamente desagradáveis para Portugal. O conde via ali só inveja — a inveja que nos têm todas as nações por causa da importância das nossas colonias, e da nossa vasta influência na Africa...

   — Está claro – dizia o conde – que não temos nem os milhões, nem a marinha dos ingleses. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a tomada de Ormuz é um primor... E eu que conheço alguma coisa de sistemas coloniais, posso afirmar que não há hoje colónias nem mais susceptíveis de riqueza, nem mais crentes no progresso, nem mais liberais que as nossas! Não lhe parece, Maia?

   — Sim, talvez, é possível... Há muita verdade nisso...

   Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o monóculo no olho e sorrindo

para a baronesa, pronunciou-se alegremente contra todas essas explorações da Africa, e essas longas

missões geográficas... Porque não se deixaria o preto sossegado, na calma posse dos seus manipansos?

Que mal fazia à ordem das coisas que houvesse selvagens? Pelo contrário, davam ao Universo uma deliciosa

quantidade de pitoresco! Com a mania francesa e burguesa de reduzir todas as regiões e todas as raças ao

mesmo tipo de civilização, o mundo ia tornar-se de uma monotonia abominável. Dentro em breve um

touriste faria enormes sacrifícios, despesas sem fim, para ir a Tungubutu — para quê? Para encontrar lá pretos de chapéu alto, a ler o Jornal dos Debates!

   O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, saindo do seu vago abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:

   — Este Ega! Este Ega! Que graça! Que chic!

   Então Sousa Neto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta pergunta grave:

   —Vossa Excelência, pois, é em favor da escravatura?

   Ega declarou muito decididamente ao Sr. Sousa Neto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo ele, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser seriamente obedecido, quem era seriamente temido... Por isso ninguém agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse lícito dar vergastadas... Só houvera duas civilizações em que o homem conseguira viver com razoável comodidade: a civilização romana e a civilização especial dos plantadores da Nova Orleans. Porque? porque numa e noutra existira a escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!...

   Durante um momento o Sr. Sousa Neto ficou como desorganizado. Depois passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega.

   — Então Vossa Excelência, nessa idade, com a sua inteligência, não acredita no Progresso?

   — Eu, não senhor.

   O conde interveio, afável e risonho:

   — O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem realmente razão, porque os faz

brilhantes...
   Estava-se servindo jambon aux épinards. Durante um momento falou-se de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia também brilhantes e difíceis de sustentar, excessivamente difíceis, era o Barros, o ministro do reino...[27]

   Paradoxa encomia é na literatura latina o nome dado a um género específico de panegíricos a temas baixos, inesperados, repelentes, fora do que a sociedade julga aceitável. São panegíricos paradoxais porque louvam peidos, calvície, ratazanas, aranhas, dívidas, ou a loucura n’O Elogio da Loucura. São divertidos porque o leitor sabe que não devem ser levados à letra; pelo menos não penso que Thomas De Quincey estivesse realmente a louvar o assassinato em Do assassinato como uma das Belas Artes. Rosalie Collie escreveu um cartapácio acerca deste fascinante género: Paradoxia Epidemica: The Renaissance Tradition of Paradox (1966). Este género teve uma voga popular quando as obras de Luciano de Samósata foram redescobertas. Eça foi um grande leitor de Luciano,[28] o louvor da escravatura é precisamente o tipo de coisa que uma personagem luciânica faria. Para mim, o mais estarrecedor desta passagem é o facto de Eça conhecer os clássicos latinos bem o suficiente para usar um termo técnico no devido contexto.

Podemos discernir pelo tom do narrador e pelos comentários das personagens que o louvor é faceto. Na estrutura do livro, esta passagem serve para reforçar a frivolidade dos comensais que saltam de tópico em tópico sem aprofundar nada, deleitados apenas com o brilharete retórico, pois é uma das auto-críticas intemporais desde Luís António Vernei que os portugueses são retóricos e superficiais. O que importava a Eça, sempre, era desmascarar os vícios do seu povo.

Lima nem se consegue decidir se deve achar Ega racista por querer colonizar África ou por os querer deixar em paz com os seus costumes. Noutra passagem ofensiva lemos:


   Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega murmurava um «olá!», acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chic. Carlos pasmava.  Que faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos...

   — Isto é fantástico, Ega!

   Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que  tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas sem originalidade, sem  força, sem caracter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro—modelos  de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Somente, como lhe falta o sentimento da  proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado— exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até á caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta — imediatamente o janota estica-o e aguça-o até ao bico do alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine em estilo precioso e cinzelado — imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez, o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução — imediatamente põe no programa dos exames de primeiras letras a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman... É o que sucede com os pretos já corrompidos de S. Tomé, que vêem os europeus de lunetas—e imaginam que nisso consiste ser civilizado e ser branco. Que fazem então? Na sua sofreguidão de progresso e de brancura acavalam no nariz três ou quatro lunetas, claras, defumadas, até de cor. E assim andam pela cidade, de tanga, de nariz no ar, aos tropeções, no desesperado e angustioso esforço de equilibrarem todos estes vidros — para serem imensamente civilizados e imensamente brancos...

   Carlos ria:[29]

Isto é, na verdade, bastante moderno, agora que se anda a pregar que a integração é um paradigma opressivo. Malcolm X converteu-se ao Islão porque pensava que era uma religião mais autenticamente negra. Um dos objectivos do movimento Black is Beautiful foi aumentar a auto-estima dos negros, devolver-lhes o orgulho na sua identidade histórica e cultural de modo a venceram o complexo de inferioridade que os instava a ser imitadores duma cultura que os aliena das suas raízes. Subjacente às palavras de João da Ega está o mesmo grito de dignidade que enforma o clássico poema de Langston Hughes:

The night is beautiful,

So the faces of my people.

The stars are beautiful,

So the eyes of my people.

Beautiful, also, is the sun.

Beautiful, also, are the souls of my people.[30]

Tendo em conta que cresce dia a dia a ideia de que os Descobrimentos foram daninhos, de que não trouxeram quaisquer benefícios aos povos colonizados, de que mais valia cada povo ter ficado no seu rincão, de que mais valia se ter deixado os africanos a viver as suas vidas sem acesso aos malefícios da tecnologia e da ciência europeias, o que é que João da Ega afirma aqui que seja hoje em dia controverso? Ega faz-nos perceber que uma minoria deve deixar de se construir dentro das superestruturas culturais invisíveis que o colonizador ergueu para repercutir a sua imagem inferior; em vez disso, deve fundar a sua identidade autêntica e descolonizar-se mentalmente. Aonde quero chegar é: não está na hora de repensar João da Ega como um precursor da Teoria Crítica da Raça?

O Provador vai provando. Para Raquel Ribeiro, é transparente como um saco de plástico que Os Maias é racista por causa dos comentários de Ega. Nenhuma objecção levantada até agora lhe merece a menor hesitação. Resta só o estereótipo, a caricatura da “intelectualidade bem-pensante, agarrada ao seu cânone intocável, cristalizado em tomos forrados a seda e letras douradas gravadas à mão, provavelmente com primeiras edições assinadas pelo próprio Eça, que era amigo de um amigo da família, chique a valer.” De repente todos sabem em que ponto se encontram os actuais estudos ecianos. De facto não é preciso haver discussão, a moda e o medo são sinónimos e já há indícios do futuro:

Em declarações à agência Lusa, a propósito da análise de Vanusa Vera-Cruz Lima, o vice-presidente da AFP [Associação de Professores de Português], Luís Filipe Redes, disse que não é precisa “uma análise muito profunda para compreender os preconceitos raciais presentes em Os Maias e em outros textos de Eça”.

“Apesar do seu realismo, o autor tem as limitações de um homem do século XIX. Para não termos visões preconcebidas relativamente aos outros, temos de interagir com eles, coisa que o Eça não terá tido oportunidade de fazer, não obstante a sua passagem por Cuba”, adiantou o professor de Português.

O docente sublinhou que “a perspectiva racista era dominante nos estudos antropológicos desse tempo”. “Eça era contra o tráfico de escravos e isso também se lê em Os Maias. A alternativa ao tráfico de escravos era o desenvolvimento de África que passava pela ocupação efectiva num movimento que se chamava “colonialismo”. É o que vemos no trajecto da personagem Gonçalo, da Ilustre Casa de Ramires”, comentou.

Por isso, Luís Filipe Redes considera que a leitura desta obra “implica a análise dos preconceitos raciais do discurso narrativo e das personagens e inserir esse discurso no contexto histórico. O que não podemos fazer é projectar juízos de valor formados nas vivências do nosso tempo sobre as acções dos homens do passado”, sublinhou.

O prof. Redes passou um atestado ou de incompetência ou de cobardia a todo o professor de Português. Se não é precisa “uma análise muito profunda para compreender os preconceitos raciais” porque não se chegou ele à frente há mais tempo? Porque não é ele o autor dum estudo pioneiro sobre o racismo n’Os Maias? Se sabia disso, porquê a sua silenciosa compactuação até agora? Porque permitiu expor alunos a material susceptível de os ofender ou perturbar?

Há frases que nem consigo descodificar. “Apesar do seu realismo, o autor tem as limitações de um homem do século XIX.” Que inferir disto? Que o realismo é uma panaceia mágica que dota os usuários de pensamento progressista? Que se Eça tivesse sido melhor realista ter-se-ia libertado dos preconceitos do seu tempo? Mais tarde o prof. Redes desdisse-se ao lembrar que Eça, sendo realista, afinal estava obrigado a captar a linguagem racista do seu tempo.[31] Mas afinal o realismo devia tê-lo impedido ou impelido? Enquanto deixamos o prof. Redes a matutar nessa incongruência, passemos a outro aspecto que lhe tem tirado o sono: o uso gratuito de expressões como “carapinha do preto” e “selvagem”.[32] É claramente ofensivo o Ega tratar os africanos de selvagens – mas é mesmo? “Selvagem” fez parte do respeitável jargão da antropologia até há pouco tempo, como no-lo recorda O pensamento selvagem (1962) de Claude Lévi-Strauss, quiçá outro racista.

Mas concedo ao prof. Redes o uso de “preto”; o substantivo é hoje em dia um termo ofensivo monopolizado por racistas. Até há pouco as alternativas respeitáveis eram “negro”, “pessoa de cor”, mas começa-se a impor “afro-descendente” e “luso-africano”. Linguisticamente, isto não é invulgar. Compreendo que o uso n’Os Maias possa chocar quem não souber que em 1888 “preto” era o nosso inócuo e socialmente aceite “negro”.

Sabias que José Agostinho de Macedo era abolicionista? Em 1830 escreveu a peça de teatro O Preto sensível, que, de acordo com a historiadora Maria do Rosário Pimentel, “prestou certamente a sua contribuição tanto à causa abolicionista portuguesa, como à brasileira.”[33] O sentido conotativo das palavras muda ao longo do tempo, mas podemos estar certos de que Eça o usou sem intenção pejorativa. O interessante seria averiguar quando é que “preto” se tornou ofensivo. Ruben A. ainda o usava sem intenção pejorativa em 1947.[34] E Vasco Pulido Valente, num artigo claramente condenatório do falhanço da exemplar descolonização portuguesa, escreveu em 1990:

Deixaram-se para trás povos que não formavam ou tinham a menor probabilidade de vir a formar nações. Deixou-se para trás uma classe média preta, incapaz de organizar um Estado e de o gerir. Deixou-se para trás um vácuo tecnológico, empresarial e financeiro. E deixaram-se também déspotas loucos de diverso pêlo, ganância ou crueldade.[35]

Talvez a locução “classe média preta” levante um sobrolho ao leitor actualmente, mas pelo contexto percebe-se foi usada neutralmente.

Eufemismos raciais são instáveis e mudam com o tempo. Há páginas esclarecedora em Steven Pinker sobre como expressões outrora aceitáveis se tornaram tabu. Outrora nos EUA o termo civilizado era negro, depois passou a black, depois a African-American.[36] E ainda não parou. Idealmente, não devíamos precisar de usar nenhum termo que reduz uma pessoa a uma característica física. Não podemos controlar o sentido das palavras, mas podemos ao menos saber a história por trás delas antes de passarmos juízos insensíveis sobre quem as usou inocuamente no passado; até porque essa história devia pôr de sobreaviso os que hoje em dia se acham iluminados por usarem “negro” ou “afro-descendente”: sejam mais humildes porque há chances de a posteridade vir a julgá-los racistas também.

Podemos refutar um por um os argumentos do prof. Redes, mas isso apenas nos dá satisfação intelectual porque já não podemos desfazer o mal causado. Neste momento, há pessoas que consideram ponto assente que Eça foi racista. O sr. Jorge Fonseca de Almeida não tem já quaisquer dúvidas acerca de Lima “ter demonstrado a existência de racismo” em Os Maias.[37] Ainda que os srs. Barata e Martins peçam que pacientemente esperemos pela sacrossanta tese antes de lhe pormos defeitos, o Provador vai provando. O juízo sobre a obra passou para o seu autor. Até há três semanas ninguém teria tido a coragem de espalhar desinformações tão insanas. Quem é o sr. Almeida? Um economista. Não o menosprezemos por isso, também George Steiner o foi e o vejam aonde chegou! Que tem ele a acrescentar? Aparentemente, em defesa o “principal argumento aventado foi o de Eça ser um homem do seu tempo e não poder ser lido com os olhos da atualidade.” Bem, não, o principal argumento foi de que a p&d é elementar, superficial e quebra preceitos básicos da análise literária ensinados nas universidades desde 1945, para não irmos mais atrás. “Mas em que época viveu Eça para que o seu racismo possa ser considerado fruto do tempo e não preconceito seu?” pergunta para afoitamente repescar do Wikipédia umas datas que demonstram que afinal de contas o racismo, o colonialismo, o imperialismo, não podem ser simplesmente desculpados como a episteme duma época. “Vemos que apesar da força do colonialismo e do racismo no tempo de Eça existiam também os que contra ele se batiam, contra ele escreveram as suas obras. Foi, pois, um tempo dividido. Havia escolhas a fazer. Eça, como outros, fê-las. Não foram as melhores.” Agora já nem se trata de racismo inconsciente, não foi vítima duma superestrutura invisível que lhe parametrizou o pensamento desde pequeno; foi uma escolha premeditada; Eça, por masoquismo, escolheu o lado errado da história como se estivesse a pedir o n.º 3 do menu. O Provador vai provando.

Até agora não atingiu o nível de Steiner. Steiner não teria cometido este erro crasso: “Em Portugal vivia-se sob a Monarquia e Eça era monárquico.” Todos os ecianistas adorariam saber aonde foi buscar a prova de que foi monárquico. Nas Farpas declarou que não seguia nenhum ideal;[38] em 1898 descreveu-se como “um vago anarquista entristecido”.[39] Mas a crassidão é o sr. Almeida pensar que o republicanismo e a escravatura eram incompatíveis. Como Maria do Rosário Pimentel indica em Viagem ao fundo das consciências, em 1925 “possíveis práticas escravistas” em colónias portuguesas ainda estavam a ser denunciadas à Sociedade das Nações.[40] A I República, por pressão externa, teve de ocultar o recurso à escravatura, mas o que fez foi inventar o estatuto de “indigenato”, que na íntegra mantinha a sujeição dos autóctones à Metrópole.[41]

Este branqueamento do colonialismo durante a I República, de resto habitual nos media, não mereceu nenhum reparo ao prof. Pereira, que louvou o artigo na sua página do Facebook.[42] O mesmo Pereira que nos últimos anos se notabilizou por escaramuças com João Pedro Marques sobre como a história da escravatura andar a ser mal contada. E não é que tem razão!

Portanto, o sr. Almeida acabou de nos garantir que era possível a uma pessoa em 1888 não ser racista. E agora? “Concluímos que a época nada desculpa o racismo de Eça, antes lhe imputa a responsabilidade da sua errada escolha.”

Bem, o sr. Almeida, que tem a coragem de estadear as suas credenciais anti-colonialistas e anti-racistas quando não há colónias e o racismo é crime, talvez fique feliz por saber que Eça não lhe ficou atrás em tempos menos tolerantes. Já vimos que denunciou a opressão dos emigrantes asiáticos em Cuba, o anti-semitismo na Alemanha e a xenofobia lisboeta contra os brasileiros. Criticou também as investidas bélicas da Inglaterra no Afeganistão;[43] condenou o bombardeamento de Alexandria em 1882, que foi o passo inicial da ocupação do Egipto por tropas britânicas até 1956.[44] Criticou o ultimato da França ao Sião de que este lhe desse “uma imensa porção do seu território e uma não pequena porção do seu dinheiro.”[45] Mostrou-se também preocupado com as intenções de a Inglaterra apoderar-se dos recursos do Brasil. “O Times aqui embrulha-se. Prefiro explicar a sua ideia, a traduzir-lhe a complicada prosa; quer ele dizer que o dia se aproxima em que a civilização não poderá consentir que tão ricos solos, como os dos Estados do Sul da América, permaneçam estéreis e inúteis, e que, se os possuidores actuais são incapazes de os fazer valer e produzir, para maior felicidade do homem, deverão então entregá-los a mãos mais fortes e mais hábeis. É o sistema de expropriação por utilidade de civilização. Teoria favorita, da Inglaterra e de todas as nações de rapina…”[46]

Mostrou-se preocupado que a Doutrina Monroe pudesse ser usada pelos EUA para justificar que as riquezas naturais da América do Sul só pudessem ser exploradas pelos norte-americanos. Este artigo, “A propósito da Doutrina de Monroe e de Nativismo”, é um dos mais eloquentes documentos sobre o que ele pensava do colonialismo enquanto método de progresso social. É também uma arguta crítica ao conceito de que a América deveria ser explorada por uma “raça americana” em que caberiam os norte-americanos descendentes de europeus. “Certamente existiu (e ainda existem delas restos dizimados e perseguidos) uma verdadeira raça americana, que todos os compêndios de etnologia descrevem, e que se compunha amontoadamente dos Tinehs, dos Algonquins, dos Iroqueses, dos Apalaches, dos Astecas, dos Incas, dos Caraíbas, dos Guaranis, e de toda a gigantesca gente patagónia.” Esses eram os “legítimos donos da América”. “Mas não é decerto para esses que os compatriotas do presidente Monroe reclamam o domínio e o gozo exclusivo da América – pois que esses (também por uma estranha aplicação da doutrina de Monroe) são perseguidos, exterminados, como animais que, pela sua própria animalidade, maculam o esplendor da civilização americana e ocupam no solo, com as suas pobres choças, um espaço que pertence ao civilizado e aos seus prédios de dezasseis andares.”[47]

É assombroso darmo-nos conta de que estas palavras não foram pronunciadas por um activista nativo-americano em 2021 mas por um europeu em 1896. Este é o Eça que julgo autêntico.

Podemos fazer algumas ressalvas: um homem que defende judeus, emigrantes asiáticos, brasileiros, nativo-americanos, não tem necessariamente de ter bons sentimentos sobre negros. Não há nenhuma regra da tolerância que decrete que uma pessoa que defende uma minoria perseguida ame todas elas. A própria descriminação contra homossexuais foi praticada por judeus em campos de trabalho nazis. Além disso, não sabemos praticamente nada do que Eça pensava sobre africanos ou negros em geral, para bem e para o mal, há um buraco textual nesse ponto. Não sabemos se teve amizades negras na Cuba cheia de descendentes de escravos. Não sabemos o que pensava dos criados negros baianos em Verdemilho. Não sabemos fidedignamente o que pensava do colonialismo português em África. No extremo, Ega até pode ser o seu alter ego. Tudo isso são suposições. O que sabemos é o que mostrei acima: há um padrão mental coerente ao longo duma vida exibindo uma atitude consistentemente ao lado dos oprimidos e a convicção de que os povos dum dado território devem ter direito à sua autonomia e a não ser dominados, expulsos ou explorados por outrem. Posto isto, o nosso dever é dar-lhe o benefício da dúvida e decidirmos cada um por si se duas breves passagens num romance de 200 000 palavras que por razões estéticas distorce e oculta o pensamento do autor, valem mais do que todos os artigos de jornal onde a sinceridade está cravada como estacas em cada linha.

Eça foi um precursor dos movimentos dos direitos civis e da justiça social. Usou sempre o seu talento para denunciar crueldade, intolerância, desumanidade, opressão, e esforçou-se por deixar o mundo um pouco melhor do que quando entrou nele.

O que estamos aqui a decidir é como vamos julgar o carácter dum homem, não duma personagem de ficção. Um homem que está a ser julgado à base de “provas” tão pobres que qualquer um dos acusadores se sentiria indignado se os papéis fossem invertidos. Não estamos nas estratosferas rarefeitas dos princípios abstractos, como Bethencourt, Barata, Pereira pensam. Acusações foram feitas, a dúvida instalou-se, a desinformação já descarregou em muitas mentes desde o dia 21 de Fevereiro. O economista Almeida é o perfeito exemplo de que não é preciso provas para se crucificar um bom homem. Isto foi feito com a cumplicidade de académicos cujo dever é espalhar conhecimento.

Eça não é uma abstracção, foi uma vida concreta, viveu, tem uma reputação, tem direito à sua hombridade. E não está cá para se defender duma injúria que hoje em dia é sinónima de ostracismo social. Se estamos a ensinar cidadãos a repelir o racismo em prol duma sociedade equitativa, ao prepararmos o leitor psicologicamente para considerar que Eça realmente é racista, demos o primeiro passo para o expulsarmos da nossa companhia. Porque, se é racista, e se não toleramos racistas, nota explicativa ou não, com que justificação pode fazer parte duma sociedade que abjurou os valores que ele personifica? Se é para os buxos irem à vida e a toponímia das ruas mudar, porque é que Eça merece ser salvo? O que faz dele uma excepção?

Como vimos, o prof. Redes e o economista Almeida já decidiram que a reputação de Eça não vale nada por aí além. Não precisaram de muito para passar essa sentença. Apenas precisaram do ambiente de ignorância que Bethencourt, Barata, Pereira incentivaram. A forma mais simples de alguém parecer virtuoso é dizer que outro não o é. O prof. Redes, após pintar Eça como racista, alertou que não podemos “projectar juízos de valor formados nas vivências do nosso tempo sobre as acções dos homens do passado”, tão piedoso. O homem que sistematicamente esteve do lado dos oprimidos sem olhar a cor, credo, nacionalidade e partido, tem agora a sua idoneidade ameaçada por tarefeiros que três semanas antes nunca tinham pensado nele mais do que sessenta segundos seguidos. Nem precisam de intensamente acreditar nisso. O prof. Redes veio rapidamente dizer que as passagens de Ega são irónicas,[48] que a nota pedagógica é desnecessária[49] e que, da sua experiência, os alunos interpretam a ironia de Ega.[50] É um festim de medíocres. Podem não ser capazes de escrever romances e jornalismo como Eça, nunca se distinguirão em nada, mas por instantes olharam Eça de cima do Morro da Virtude. O consolo dos medíocres é sempre financeiro e moral, nunca intelectual e artístico. Depois, a realidade voltará a jogá-los no abismo da anonimidade. Mas até, uau, lascaram um génio!

Eça, por mais que soe mal declará-lo em tempos demóticos, é um génio; é isso que faz dele a excepção que merece ser salva. Mas como “génio” é outro conceito elitista antiquado, teremos de procurar salvação ao gosto do zeitgeist. A situação não é tétrica. Estes juízos vão e vêem. Joseph Conrad sobreviveu a Chinua Achebe. O que temos a fazer é transformar estes riscos em oportunidades. Lima veio-nos pôr questões que raramente fazemos sobre Eça, e isso é óptimo. A ameaça que paira sobre ele não requer respeitinho. Um clássico está sempre na balança e é o dever da actualidade actualizar a sua relevância. Confesso que nunca pensei tanto nas últimas semanas sobre a atenção que Eça deu aos direitos humanos e civis. Não só porque nunca precisei, mas porque sou um formalista, para mim a literatura não tem ideias, apenas palavras. Todavia, atravessamos um período verista, literalista e biografista, que se interessa mais pelo que o escritor sentiu e pensou do que pelo modo como escreveu. Isso nota-se também pelo retorno ao realismo, actualmente os autores mais populares são aborrecidos urbano-depressivos da classe média que desbotam em prosa insípida as suas vidinhas canifrazes iguais às dos seus leitores seja em que ponto do mundo civilizado se encontrarem. Acabou há tempos a exuberante fase da literatura que nos trouxe a metaficção, o romance auto-consciente, o realismo mágico, o OuLiPo, o Neo-VuDu, o neobarroco, a fabulação, o pastiche, estamos de novo enclausurados no redil do real. Estamos a viver tempos apocalípticos não muito diferentes dos que impulsionaram o triunfo do realismo social(ista) dos anos 30 e 40. Novamente avaliamos a qualidade dum livro a partir das boas intenções do autor e da sua adesão a partidos e movimentos populares. E já começámos a cometer os mesmos erros que os neos cometeram. Eça foi apanhado de surpresa e já sofreu a primeira derrota. Mas isso pode ser invertido. Claramente precisamos dum Eça político, não o que olhava obsessivamente para a realidade local e que é mero reflexo da nossa tara por autognoses nacionais, mas uma mente viajada e internacionalista, atenta ao mundo como hoje em dia o somos, comprometida com as minorias do seu tempo e com as nações à mercê da rapina dos impérios europeus. Por agora precisaremos menos do meu Eça, o druida do estilo, e mais dum Eça que falou contra o anti-semitismo, o trabalho forçado em Cuba, os primeiros passos do imperialismo americano, a intromissão de França e Inglaterra na autonomia de outras nações, o Eça que nos deveria deixar orgulhosos da sua presciência e que nos deveria inspirar a lutar por um mundo mais justo. Está patente que esse Eça é um grande desconhecido. Se de todo este imbróglio der para extrairmos esse Eça, ficarei agradecido até ao fim da vida a Vanusa Vera-Cruz Lima pelas ondas de terror que espalhou pelos estudos ecianos.

 



[1] Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, As Farpas, vol. II, org. de Maria Filomena Mónica, Cascais: Principia, 2004, pp. 390-395

[2] João Medina, Reler Eça de Queiroz: das Farpas aos Maias, Lisboa: Livros do Horizonte, 2000, p. 29

[3] As Farpas, vol. II, p. 411

[4] O vídeo já está offline. No blogue de Viegas, foi postado a 29 de Junho de 2010:

https://fjv-cronicas.blogspot.com/2010/06/entrevista-com-francisco-jose-viegas.html?m=1

Citei uma transcrição tirada do blogue Delito de Opinião:

https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/reflexao-do-dia-6646273

Já não oiço o filme há uns 7 anos, mas lembro-me distintamente destas afirmações.

[5] Francisco José Viegas, “Este mês, Machado de Assis cumpriria 177 anos”, 24/06/2014:

https://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/francisco-jose-viegas/detalhe/20160624_0716_blog

[7] “Os Maias são racistas? ‘Que virtudes cívicas existem em Miguel Torga? E em Agustina?’”, 12/03/2121:

https://observador.pt/programas/do-8-ao-80/os-maias-sao-racistas-isto-e-uma-infantilizacao/

[8] [8] Eça de Queiroz, “De Port Said a Suez”, em Eça de Queiroz Jornalista, org. Maria Filomena Mónica, Cascais: Principia, 2003, pp. 88-99

[9] Luís Manuel de Araújo, Eça de Queirós e o Egipto Faraónico, Lisboa: Editorial Comunicação, 1988, pp. 85-99

[10] Citado em Archer de Lima, Eça de Queiroz Diplomata, Lisboa: Portugália, s/d, p. 54

[11] Eça de Queiroz, “Israelismo”, em Cartas de Inglaterra, Mem Martins: Publicações Europa-América, Mem Martins, p. 37

[13] Carlos Maria Bobone, “Eça de Queiroz, ‘Os Maias’ e uma pergunta sobre racismo”, 21/02/2021:

https://observador.pt/especiais/eca-de-queiroz-os-maias-e-uma-pergunta-sobre-racismo/

[16] “Dias depois, Carlos Maria Bobone assinava no Observador um texto de análise (não ouviu a investigadora)”, escreveu Raquel Ribeiro em “Não, ninguém vai censurar o Eça”, 10/03/2021:

https://www.wort.lu/pt/sociedade/n-o-ninguem-vai-censurar-o-eca-6048951cde135b9236ca04d6?fbclid=IwAR1rUZsb52ZGTwhCVD671wc_Y7izm6PrSpVe_i34FFsKLyv_BghnWnM5GXc

[18] Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, As Farpas, vol. I, org. de Maria Filomena Mónica, Cascais: Principia, 2004, p. 121

[19] As Farpas, vol. I, p. 115

[20] “Investigadora diz que passagens racistas em ‘Os Maias’ justificam nota pedagógica”, 07/03/2021:

https://www.dn.pt/sociedade/investigadora-identifica-varias-passagens-racistas-em-os-maias-13427981.html

[21] Bruno Cordovil da Silva Cordeiro, “A iluminação pública em Lisboa e a problemática da história das técnicas” [tese de mestrado], Lisboa: Universidade de Lisboa/Instituto de Ciências Sociais, 2006, p. 2

[22] Nell Irvin Painter, The History of White People, 2010, Nova Iorque: W. W. Norton & Company, 2010, p. 59

[23] Margaret Talbot, “The Myth of Whiteness in Classical Sculpture”, 22/10/2018:

https://www.newyorker.com/magazine/2018/10/29/the-myth-of-whiteness-in-classical-sculpture

[24] Daniel Purdy, “The Whiteness of Beauty: Weimar Neo-Classicism and the Sculptural Transcendence of Color”, em Birgit Tautz (ed.), Colors 1800, 1900, 2000: Signs of Ethnic Difference, p. 97

[26] Gilbert Highet, The Anatomy of Satire, Princeton, NJ: Princeton University Press, 1972, pp. 98-99

[27] Eça de Queiroz, Os Maias, Lisboa, Círculo de Leitores, 1986, pp. 232-233

[28] Ana Paula Foloni Gamba, “Eça de Queiroz, Leitor de Luciano de Samósata? A presença luciânica nos textos O mandarim, A relíquia e A cidade e as serras” [tese de doutoramento], Assis: Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista, 2009

[29] Os Maias, p. 416

[30] Langston Hughes, “My People”, em The Collected Poems of Langston Hughes, Nova Iorque: Vintage Books, 1994, p. 36

[33] Maria do Rosário Pimentel, Viagem ao fundo das consciências: a escravatura na época moderna, Lisboa: Edições Colibri, 1995, p. 303

[34] Ruben A, Páginas I, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 16

[36] Steven Pinker, The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature, Londres: Penguin Books, 2003, p. 212

[38] As Farpas, vol. I, p. 91

[39] Citado em Maria Filomena Mónica, Ensaios sobre Eça de Queirós, Lisboa: Relógio d’Água, 2007 p. 192

[40] Viagem ao fundo das consciências: a escravatura na época moderna, p. 365

[41] Maria da Conceição Neto, A República no seu estado colonial: combater a escravatura, estabelecer o «indigenato»:

https://journals.openedition.org/lerhistoria/1391

[43] Cartas de Inglaterra, p. 7;

[44] Cartas de Inglaterra, p. 69;

[45] Eça de Queiroz Jornalista, p. 324

[46] Cartas de Inglaterra, p. 118

[47] Eça de Queiroz Jornalista, p. 414

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